terça-feira, 1 de agosto de 2017

“QUEM FAZ UM FILHO FÁ-LO POR GOSTO”!



         Chegou Agosto. Do sol nado e do sol posto. De fazer um filho e fazê-lo por gosto, aconchegado à sombra das persianas de um amor de verão. E à noite vem o luar pleno, tão diverso do Luar de Janeiro que deita flocos de melancolia, aquela que encheu de neve e turbação o coração de Augusto Gil. Mas o Luar de Agosto é outro. Igual ao rosto dos trigais, das eiras e das desfolhadas porque traz outro filho, também feito com gosto.
       E é com o mesmo gosto de sempre que trago este filho de nome SENSO & CONSENSO dado na pia comum dos dias ímpares.
         Cumprido o desiderato dos 500 textos e após um Julho atípico, retomo o nosso convívio a meio da ponte deste percurso - sempre antigo e sempre novo – que nos une. Escrevo como quem expõe à brisa da manhã a face descoberta ou como se mergulha na avidez macia das ondas que nos chamam. Custa mais o processo criativo, aquele tempo invisível e doloroso da gestação da ideia. Depois é o prazer de trazer à estrada o novo filho e dá-lo ao beijo de quem passa.
         É, talvez, o móbil imperativo de quem escreve: saber que no tango da escrita há sempre alguém que dança connosco. Por mais profundo e intimista o acto público da escrita, ele há-de soltar-se sempre ao encontro de alguém. É essa a razão ontológica da sua existência. Não pode o poeta contentar-se com o narcisismo isolacionista do seu feudo privatístico. Revisito, neste parágrafo, o traço seguro de Pablo Picasso quando escreveu: “Um quadro só vive para quem o olha”. Sem pôr em causa a observação recente do grande filósofo e escritor português, Eduardo Lourenço – “a ambição do exibir devora-nos” – não restarão dúvidas sobre o horizonte global onde se há-de reflectir e comunicar o sopro criador de quem escreve. Permitam-me um desabafo: sempre que me detenho frente às estantes das livrarias e das grandes bibliotecas, um só pensamento me ocorre, num misto de desejo e frustração. E oiço-me a dizer cá dentro: “Tanta gente que escreveu para mim, tantos amigos e amigas que me enviaram mensagens directas e eu nunca serei capaz de lê-las todas e saboreá-las por inteiro”. O amor com que alguém as escreveu deverá ser o mesmo com que alguém as quiser ler.
         No primeiro de Agosto renovei o contrato com o “Carteiro” de Neruda para entregar-vos a minha missiva interdiária, com um registo de correio de Agosto: que o mesmo gosto com que foi enviada seja o mesmo gosto com que será aceite e, se possível, retribuída.
Um abraço!

01.Ago.17

Martins Júnior