segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O DRAMA DE FICAR OU LARGAR


Se, como se diz, “uma imagem vale mais que mil palavras”, também se lhe deve apor o contraditório, acrescentando que uma palavra pode sugerir mais que mil imagens. E foi, precisamente, esta tese-antítese que deu mote a uma intensa reflexão que abala e todos os dias agita a aparente acalmia de quem se fez ao largo no vasto oceano da vida. O meu caso, também.
Directo ao assunto: a historiadora Raquel Varela publicou na sua página pessoal a imagem que, com a devida licença, coloquei em epígrafe. Três padres amigos, Tavares, José Luís Rodrigues e eu, aproveitámos a hora de almoço para colaborar com a autora e com a investigadora brasileira Luísa Barbosa no estudo que ambas decidiram fazer, tocando as margens da historiografia da Igreja na Madeira. E comentou, ela própria, a foto, escrevendo: “três lados luminosos de uma Igreja justa, transformadora”. Logo choveram comentários e denúncias em cima de duas palavras apenas: ”Igreja justa”, os quais se sintetizam num único conceito, de que a instituição não é nem nunca foi justa.
Uma declaração, porém, voltou a bater-me como uma pedra pontiaguda na testa, até ao peito: “Quem não se revê nos valores da instituição não faz parte dela”. Uma proposta clara: sair, fugir, abandonar.  Quantas vezes essa pergunta anda a atormentar-me – a mim e a tantos outros  companheiros de viagem! E é sempre a mesma corrente das marés  e contra-marés constantemente  a marulhar cá dentro, num duelo febril!
Já descobrimos, pelas vergastadas na vida, aquilo que nos esconderam em doze anos de internato de seminário: que a Igreja-instituição não cumpre, detectámos a olho-nu que ela despiu pomposamente o seu Fundador na praça pública, vimos que ela apropriou-se despudoradamente do seu programa de luta pela Verdade, de humildade e serviço, para transformá-lo num Império de ouro, de hegemonia mundana, de corrupção acetinada. Não tenho dúvidas de que o Vaticano é o  monstruoso muro da vergonha que nos impede de ver o verdadeiro rosto do Cristo Histórico, Aquele que não se vergou perante a ditadura religiosa dos magnates do Templo oficial de Jerusalém, mesmo nos paroxismos da mais vil tortura no cadafalso raso do Calvário.
Mas, então, porque continuas nesse antro de injustiça e hipocrisia?...
Vou responder-lhe. Antes, porém, tentarei mostrar factualmente a radiografia de uma instituição que subverteu, sem escrúpulos, todos os ideais libertadores do Mestre que ela invoca todos os dias nos seus rituais, não para iluminar mas para obscurecer os homens e mulheres de boa-fé. Presumo que o Império vai continuar, séculos fora, não “por obra do Espírito Santo”, como abusivamente apregoam os seus serventuários, mas pela capacidade mimética de adaptar-se a todos os regimes de poder político e económico, o que levou o grande bispo e santo, Agostinho de Hipona, a produzir,  há 1.500 anos (séc.V)  esta cruel mas rigorosa sentença: Casta meretrix Ecclesia – “Igreja, casta prostituta, meretriz sempre pura”.
Dispenso-me de repetir, a este propósito, o que já referi  em outras circunstâncias: o incesto de poderes, que junta no mesmo pescoço a cabeça do poder religioso e a cabeça do poder de Estado. E aí temos, o Estado Vaticano a nomear embaixadores (iguais aos diplomatas leigos) com a sacrílega chancela de “Núncios Apostólicos”. Oh Pedro Apóstolo,  pescador do mar  da Galileia, sai do túmulo e anda ver os palácios e os galões cardinalícios com que se vestem os teus colegas de pesca, a companha do teu barco!
Um dia destes, um amigo emigrante venezuelano, de férias na Madeira, confidenciou-me: “Sabe, o padre lá na minha cidade, que é meu amigo também,  disse-me que esta Papa é comunista. Afiançou-me que era”.  Só porque Francisco ( a excepção clamorosa na história dos Papas!)  toma a defesa frontal da justiça social. E por essa razão os pilares da instituição, bispos e cardeais, uns em surdina, outros abertamente (o americano Leo Burke, por ex.)) querem processá-lo, a Francisco, como herege – que  mais provas pretendemos nós para classificar a instituição como marginal e defraudadora do Cristo Histórico?!

     Perante esta cegueira insanável, porque maquiavelicamente elaborada, o Papa Francisco deveria abandonar não apenas o trono do Vaticano mas a própria instituição-Igreja. Mas não o fez. Nem fará, espero eu. E com esta proposta, já começo a justificar-me face à observação de   . É o que apresentarei no próximo dia ímpar.
Martins Junior
07.Ago.17