domingo, 29 de novembro de 2015

VIGÍLIA E SAUDADE DE 30 DE NOVEMBRO --- VINDE E VEDE!


Hoje é tempo de vigília. De espera por alguém que traz na mão o facho olímpico da Ideia regeneradora de todo mundo habitado: de ontem, de hoje, de sempre. Propositadamente conjugo o verbo no presente --- “traz na mão” --- porque  é de ontem, de hoje e de sempre aquele que esperamos surgir na madrugada de 30 de Novembro.
Foi em 1773. No sitio dos Moinhos, entre Banda d’Além e Graça, freguesia de Machico, “em pobre, sim, mas paternal morada” viu “a primeira luz do sol sereno” o Nosso Camões ou Camões Pequeno, como então lhe chamaram ---  de nome próprio Francisco Álvares de Nóbrega. O sudário exangue que foi toda a sua vida será amanhã evocado no Salão de Actividades da Junta de Freguesia, numa iniciativa desta autarquia e da “E-FAN, Estudos Nobricenses”, a associação que tem desenvolvido estudos vários sobre Francisco Álvares de Nóbrega, sobretudo a partir de 2006, aquando das comemorações do bicentenário da sua morte, aos 33 anos de idade.
A mensagem deste  Senso&Consenso  tem por objectivo único convocar, ou longe ou perto, quem se sinta movido pelos ideais que determinaram a trajectória, a um tempo, gloriosa e dolorosa deste nosso ilustre conterrâneo, os eternos ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade que, oriundos da Revolução Francesa, viajaram triunfalmente até aos mares da Madeira. Por eles deu a vida. Injustiçado e preso nas masmorras do Limoeiro, sob os ferros da Inquisição, ele conservou sempre a aura interior da paz dos justos e os louros dos poetas de outrora
No palpitante drama histórico Frei Luis de Sousa  de Almeida Garrett, o velho aio Telmo,  debruçado sobre a campa de Luis Vaz de Camões exprimiu nestes termos o seu maior panegirico e a sua mais profunda mágoa: “AQUI JAZ A MAIOR ALMA QUE DEITOU PORTUGAL”. Do mesmo modo, nesta vigília de homenagem e encantamento, apraz-me repetir com toda a justiça: AQUI NASCEU A MAIOR ALMA QUE MACHICO DEITOU AO MUNDO”.  
Não se lhe conhece o rosto,  nem sequer o cemitério, em Lisboa,  onde foi anonimamente sepultado. Simbologia perfeita de um homem que bem pode considerar-se Cidadão da História: de ontem, de hoje, de sempre!
Amanhã, a partir das 20 horas,  no local supra-indicado,  teremos o gosto e a saudade de  descobrir as pegadas dos seus passos que. muito antes de nós, traçaram rumos de arte e libertação, como pioneiro dos tempos futuros. Os nossos tempos!

29.Nov.15

Martins Júnior

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O QUE FOI ISTO QUE ACONTECEU?…MILAGRE!


Se acaso alguém desembarcasse ontem, pelas 16 horas,  em Lisboa para revisitar os centros de decisão deste país, ficaria atónito com o súbito abalo das estruturas de Portugal. Parecer-lhe-ia deparar-se com uma paisagem lunar, onde em menos de 24 horas  tudo se havia virado da direita para a esquerda, o mesmo que dizer do avesso para o direito.
         A começar pela tragicomédia  solenemente representada  nos salões do Palácio da Ajuda, ao clássico estilo da velha Grécia, onde nada faltou: o corifeu, no alto do Olimpo,  nauseado Zeus de onze noites mal dormidas; o silencioso coro de anciãos depostos dos seus tronos, com as mesmas  onze mal dormidas noites. Eles tinham desfilado diante do corifeu supremo quando foram empossados em ….. gritando um hino patriótico  “Ave Caesar, morituri te salutant” (Os que vão morrer  saúdam-te, ó Imperador). De imediato, os jovens combatentes tomam a ribalta do grande palco e assentam-se nos tronos vazios. O esquálido Zeus empossa o novo comandante no cadeirão real, mas logo puxa a cavilha da bomba atómica que traz nas mãos e grita-lhe, alucinado: Dentro em pouco, vou dar cabo de ti.  Mas a beleza do cenário suplanta a “tragédia” : os jovens vitoriosos formam o semicírculo onde cabem todas as idades e todas as sensibilidades, direi, todas as etnias  do planeta e todos os cambiantes da condição humana, desde os mais fortes aos mais frágeis.
         Ficaria extasiado de encantamento o nosso visitante com a primavera que, desta vez, em corpo inteiro vinha passar o inverno a Portugal. Triste e vomitado, só o corifeu, com o seu “próssopon”, traduzido em vernáculo, com a sua máscara de malogrado desalento, identificado com o coro dos anciãos.
         Mas ainda mais atónito ficaria o atento observador quando chegasse à “Acrópole” das Leis, a Assembleia da Republica, ao ver cadeiras pelo ar, voando de cima para baixo e de baixo para cima (é mais fácil pôr cadeiras a voar do que gente a mudar de assento), uns do “céu” para o “inferno”, outros do “inferno” para o “céu”. Códigos soberbamente aprovados ontem e rasgados hoje em menos de um fósforo. Dentes, dantes afiados de soberania emprestada,  e hoje desdentados maxilares, colados aos olhos mortiços que só se abrem em  despeitados esgares de vingança.
         Enfim, que “tsunami” passou por aqui? --- perguntaria o nosso visitante. Se eu lá estivesse, responderia: Não foi um “tsunami”, foi o milagre, não o das rosas, mas o do Povo. Não o da multiplicação dos pães, mas o da soma inteligente dos votos, transformados em Dia  Novo e justa recompensa. Desta vez, o Eleitor viu o resultado do seu Voto. E o Eleito soube receber, interpretar e ampliar a força mensageira daquele mini-quadradinho, inofensivo e silencioso, que só a urna da vida secretamente guardou.
         Haja o que houver, venha o que vier, ficará o “4 de Outubro de 2015” com o brilho inapagável de um “25 de Abril” do século XXI,  porque aí o eleitor encontrou-se com o eleito, o fundo foi mais eloquente que a forma, o todo indiviso tornou-se maior que as partes divididas. Poderá dizer-se que, mais uma vez, cumpriu-se Portugal. É nesta ponte de convergências  que me apraz levantar a bandeira da Aliança “Povo-MFE”,  Povo-Movimento das Forças de Esquerda.
         Mesmo que nem tudo corra de feição --- o óptimo é inimigo do bom, filosofia dos tempos --- é preciso e é urgente marcar em termos indeléveis que não são os  “caudillos” que  transformam o mundo: é  o Povo, quando unido pela raiz,  é ele que vira os ventos da história. e afeiçoa-os à vela do seu barco até encontrar, ou seja, construir não “as ilhas do fim do mundo”, mas um país onde se possa respirar e sorrir. Voltemos a Pessoa:

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo.  É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.


27.Nov15
Martins Júnior


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A DEFESA DA MULHER E O “GADO” DE EÇA DE QUEIRÓS



Entre o 25 da primavera de Abril e o 25 do inverno de Dezembro toma hoje assento o 25 do outono novembrista, carregado  de memórias tantas e contradições muitas. Ele é o “25 de Novembro político” em Portugal, Ele é o centenário da relatividade de Einstein. Ele é o Dia da Eliminação da Violência contra as Mulheres. E ele é, ainda, o nascimento de Eça de Queirós em 1845. Pela minha parte confesso que há  um particular prazer lúdico-cultural quando se toma o pulso às efemérides que o calendário quotidiano nos oferece. Ficamos com a plena consciência de que a história não se esgota em nós, no nosso caso, no filme3 do aqui e agora. Pelo contrário, descobrimos que muito antes de nós há uma história vivida e contada. Neste percurso das histórias comparadas, encontramos um fio condutor ou uma relação estruturante, como a de “causa e efeito”, por onde ficamos a entender no facto passado a explicação do caso presente.
Hoje por hoje,, juntei no 25 de Novembro de 2015  duas peças, ambas de forte mensagem, ambas de estranha correlação: São as duas últimas, acima enunciadas: De um lado,  a violência de género e, do outro, a  depreciação da Mulher em Eça de Queirós. É de um simples jogo de datas e culturas que  trata este serão do dia ímpar. É também a constatação do relativismo conjuntural da vida e da sociedade.

1 – Eliminação da violência contra as Mulheres

Em 1981, o Primeiro Encontro Feminista, realizado em Bogotá estatuiu o “25 de Novembro” como o Dia Internacional  que hoje se comemora. A data deveu-se ao “25 de Novembro de 1960”, quando três raparigas irmãs foram assassinadas na República Dominicana, às ordens do ditador Rafael Trujillo. Minerva, Pátria e Tereza, todas da família Mirabal, eram lutadoras acérrimas contra a exploração das mulheres do seu país. Pagaram a factura fatal dos seus ideais! E hoje?... Hoje, nem é preciso ir às terras do Oriente, para sabermos que só neste ano foram assassinadas 27 mulheres em Portugal. Na Madeira, a taxa de incidência da violência doméstica é de 3,87/1000, enquanto no continente português fica-se pelos 2,62/1000. São dados oficiais hoje divulgados. No ano transacto, os Serviços da Segurança Social deram apoio a 143 pessoas; neste ano de 2015, o número sobe para 159, até à presente data. São muitas e refinadas as formas de perseguição, desde a violência física, a violência  passional, a violência psicológica até à violência económica, que a ONU considera “um dos crimes mais habituais e menos publicitados no universo da agressão machista”,  como foi o recente caso de  María del Mar, que conta ao El Mundo os seus dramas: “Durante 37 anos ele nunca me deixou dispor do meu dinheiro, o único dinheiro que entrava em casa. Não podia ter cartão de crédito e se quisesse fazer uma compra, tinha que pedir-lhe (ao marido). Ele, ao contrário, comprava carros com o dinheiro que era meu. Desde quando éramos noivos, ele violava-me, cuspia na cara, batia-me”… E, mesmo após a denúncia, o juiz deu-lhe uma pena irrisória.
         Quantos horrores escondidos, quantas vítimas humilhadas e ofendidas, aqui, acolá, mais além. No elenco das causas, sobressaem  os ambientes familiares, marcas hereditárias e, em todas, a mentalidade atávica que vem de longe, até das ditas sagradas páginas da Bíblia. E porque estamos em 25 de Novembro, dia do nascimento de Eça de Queirós, aqui deixo sucintamente alguns traços do figurino “Mulher” do Portugal decadente dos finais do século XIX.

         2. A depreciação da Mulher em Eça de Queirós

     Por muito que nos decepcione, a visão queirosiana da Mulher desentranha-se, à evidência, da galeria de personagens femininas dos seus romances. Poderíamos ficar apenas pelos Maias, desde a Maria Monforte “formosa, doida, excessiva, leviana” --- ela, causa da desgraça da família Maia ; “Faz o mal não por maldade mas por paixão” ---  até à diletante, ociosa e provocadora condessa de Gouvarinho. Mais chocante é a atitude dos homens quando costumeiramente, se  referem às mulheres: “Quando chegámos, o gado já estava lá”. Fruto da época, Eça  retrata, em versão inferiorizada, à lisboeta,  a  figura de  Madame Bovary, de Gustavo Flaubert,  na Leopoldina e na Luísa de O Primo Basílio, em termos degradantes: “Sonhadora, adúltera, mal educada, grande cabra, grande bêbeda … Queria uma outra vida, forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar --- ser mulher de um salteador, andar no mar, num navio pirata  e, outras vezes, queria ser freira”…
Decepcionante, não é?! Mas é a tradução do  cosmopolitismo hipócrita do Portugal fim-de-século, que tanto marcou a  denominada “Geração de 70”. E nesse friso de personagens, a Mulher é quem mais paga. Fruto de mentalidades atávicas.
Mas o mais confrangedor é que, volvidos quase dois séculos e não obstante a valorização social e profissional da Mulher, os traumas e as tragédias continuam a ensombrar a condição feminina dos nossos dias.. A aproximação das duas efemérides revela também os contrastes de uma outra relatividade: os avanços da ciência e da tecnologia não curam, só por si, as profundas feridas da mentalidade humana, espelhada nas intraduzíveis guerras de género. Falta a cultura  dos valores, à qual  me associo, neste Voto de Saudação ao Dia Internacional da Eliminação da violência contra as Mulheres.

25.Nov.15
Martins Júnior
  

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

PORTUGAL --- UMA PROPOSTA DE SOLUÇÃO PARA A EUROPA E PARA O MUNDO




         Quero começar este dia ímpar com um desejo incontido, “ímpar” também, um misto de emoção e razão: que eu nunca venha a arrepender-me daquilo que hoje solto do mais fundo de mim mesmo --- um altissonante Voto de Congratulação, talvez mesmo uma Ode Triunfal em prosa!  Porque bem o merecem os autores de tamanho feito, criação eloquente da vontade livre e não de determinismos autoritários, quer do poder quer da ciência.
         Fica bem patente que estou a olhar a cúpula de todo um processo árduo mas glorioso, cimentado de convergências e renúncias, de juventude e de maturidade. É a luz ao fundo do túnel. Aconteceu hoje quando António Costa foi chamado a Belém para trazer a “boa nova” de um governo prestes a nascer.
         Mas não é o novo governo, enquanto tal, que me galvaniza o espírito e me leva a tecer esta mensagem. Isso seria uma visão tremendamente reducionista daquilo que se passou. “O que Costa sempre teve foi a ambição de chegar a Primeiro Ministro” --- repetem, esgotam-se ressabiados os morcegos ( às vezes, vampiros) ávidos de se perpetuarem nos armazéns ministeriais  do Terreiro do Paço. Porque  propositadamente escondem a face brilhante do acontecimento. E a face brilhante, o mais precioso troféu que ora se levanta a Portugal e ao mundo é outro: O encontro de vontades rivais de quatro décadas, a reconciliação de famílias que, sendo irmãs do mesmo berço transformador da sociedade --- a Esquerda --- andavam  desavindas, perdidas nas  escaramuças autofágicas de pretensa filosofia política, abrindo com isso as portas aos lobos devoradores para se refastelarem com a carne do rebanho. Finalmente, fez-se luz, juntaram-se os trilhos, até agora reduzidos a protesto, e começou-se a construir a grande auto-estrada da Unidade e do genuíno Interesse Público. Desde há mais de um mês que se recompõe a Aliança POVO-M.F.E, Movimento das Forças de Esquerda.  Caminho difícil, em que foi preciso partir pedra, pacientemente atirar para a fogueira  velhas juras partidárias de pendor exclusivista, foi preciso quebrar enferrujados canos de espingarda e colocar bem alto deles os imarcescíveis cravos de Abril.
         É esta a Ode Triunfal  de muitas mãos, tantas vezes escrita e outras tantas corrigida, rasurada, aperfeiçoada, ampliada, uma verdadeira epopeia em construção. Não tem particulares direitos de autor: António Costa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia não são mais que os rostos visíveis dos muitos homens e mulheres que, entre consensos e dissensos, incógnitas e certezas, entusiasmos e receios, foram capazes de unir as diferenças multicolores de cada partido no tecido comum de uma só bandeira,  o Povo Português.
   Portugal oferece à Europa e ao Mundo --- a esta Europa dividida e a este Mundo cada vez mais retalhado ---  o infalível GPS para alcançar a meta da felicidade e da paz entre as nações. Esta é também uma, talvez, a melhor estratégia para vencer o terrorismo, dentro e fora de portas. Unir para ganhar. Dar as mãos para chegar mais Alto e mais Além.
         Quanto ao ainda periférico inquilino do Restelo --- uma desfigurada múmia que só mexe para desestabilizar o país --- deixe de preocupar-se com a entrada do novo governo. Preocupe-se, antes, com a sua desonrosa saída de Belém.  Ele há-de passar e o Governo vai ficar!

         Viva a Aliança POVO-M.F.E!

23.Nov.15
Martins Júnior


sábado, 21 de novembro de 2015

Sem interrogação e sem exclamação: NÓS --- OS JIHADISTAS



Não faço ideia de qual a resposta que cada um de vós, amigos e amigas, terá formulado à pergunta com que iniciei e concluí o último SENSO&CONSENSO:  Nós, os jihadistas?... Hoje, no meio da turbulência com que que os ajustes da bola fazem abarrotar as redes comunicacionais, proponho que se faça um “ponto de ordem” e se retire a incógnita então proposta e se lhe substitua pela expressão mais assertiva: Nós, os jihadistas.
         Comecemos pela evidência de constatar, ao vivo, a génese de outros tantos cataclismos sociais que a História registou ao longo dos séculos. Não se trata de  consultar a Wikipédia dos povos bárbaros que derrubaram a civilização greco-romana, ou estudar as Cruzadas, as lutas encarniçadas entre mãe e filho para implantar a independência do “Portuscale”, ou a Revolução Francesa,  nem mesmo o massacre nazi. Hoje coube-nos a sanção penal de ficarmos dentro dos horrores de outrora, sentir o dilúvio de fogo a afogar pessoas e bens, a calamidade em carne viva entrando pelas nossas portas adentro. Nós já não somos actores, mas autores das páginas sangrentas que os vindouros hão-de  relatar para a posteridade.
  Refiro-me aos cinco monstros que espalham em cima das nossas cabeças a destruição apocalíptica do planeta em que vivemos. Mencionei-os anteriormente e reproduzo-os em síntese: o dinheiro, a exclusão a guerra, a ambição “heróica” e a inércia comum. “Compra-se tudo” --- voltando à Velha Senhora” de Francis Durrematt. O dinheiro compra nações e consciências, compra graúdos e miúdos, compra cadeias e códigos penais, compra padres, bispos e papas, compra a opinião pública e a opinião  publicada. E fabrica os guetos, as armas, incita os heróis do nada e seca a força anímica de reagir.
 É este o chão fértil que tem envenenado as mentes e as lideranças e, por consequência, tem parido as fauces insaciáveis do terrorismo internacional. Não posso abusar do vosso capital disponível de tempo e espaço para levar-vos ao terreno e verificar esta indesmentível constatação. Mais descobriríamos que, na medida em que  se compra, em redobrada medida se paga. Não estará a geração presente a sofrer na pele as consequências do colonialismo estripador de gerações passadas? Absolutamente. Não significará tudo isto o furor dos explorados dos diamantes, dos petróleos, dos marfins, dos escravos com que “as ditosas pátrias” se locupletaram?  E  a barbárie da fé assassina em Allá não será o efeito de um inexistente Deus bárbaro que fez da Cruz a arma do Império, desde os longínquos continentes até às mais modestas aldeias?...


Se é verdade a inadiável intervenção cirúrgica da força defensiva e obstrutiva, também não é menos verdade a exigência de nos olharmos ao espelho da nossa consciência colectiva e vermos de que lado da barricada estamos nós, o nosso país, o nosso mundo. Não faremos nós parte indissociável dos monstros que devoram a civilização, a paz, a alegria de viver?
Exemplificando:
Quando permitimos  que legisladores fortes imponham normativos draconianos aos ombros dos mais fracos, não estaremos nós  a semear os gérmenes da guerra?... Quando chutam para a valeta do desemprego  milhares, milhões de braços famintos, sobretudo da juventude indefesa  … quando os julgadores condenam inocentes  e, a troco de dinheiro, deixam cá fora os criminosos … quando os milionários banqueiros despudoradamente diante de nós bebem o “sangue fresco” dos depositantes … quando um presidente mói no torniquete da sua teimosia a paciência de um país inteiro … quando se fabricam abrigos de gelo e abandono para quem se arrasta nas ruas e nos bairros de lata ---  que esperamos nós de volta senão a violência dos oprimidos contra a desumanidade dos opressores?!... E quando, em plena praça escolar, crianças, jovens e respectivas famílias  se digladiam no triste espectáculo do “bullying” impune… e quando, portas adentro, se adensa e fatalmente se consuma a mais selvática  violência doméstica --- em que diferem de nós as cenas, ainda que desproporcionais,  dos terroristas externos?...
Há uma excepção, imponente na sua humilde súplica, altíssima na sua coragem --- a de Francisco Papa, braços abertos nos Himalaias da História, bradando contra a “economia que mata”, interpretando o grito bíblico “O clamor do Meu Povo chegou aos Meus ouvidos, diz  o Senhor  do Universo”,  todo o dia apelando à inclusão, ao culto dos valores que libertam, à solução global para a angústia global. À sua volta, os jihadistas têm nome, são os cardinalistas e a arma, em vez da mortífera Kalashnikov, trazem-na sacrilegamente ao peito, uma cruz parricida e fratricida. A formar fileiras com a célula cardinalícia, vêm os bispos que se recusam a visitar o seu povo e os falsos guias espirituais que, sem pingo de escrúpulo, excluem da grande mesa festiva associações centenares da própria comunidade. Tudo isto é terrorismo requintado, jihadismo encoberto.    
Ficar mudo e quedo é colaboracionismo criminoso. Reagir pacificamente, até aonde se consiga  ---  é preciso, é urgente! Antes que o mal cresça...  
Assim como a pedra no meio do lago vai crescendo em ciclo ondulante até às margens, assim cada gesto nosso só se transcende em espiral de vitória, se ajudarmos a apagar o rasto dos jihadistas internos a que, por inércia ou oportunismo, ainda  pertençamos.

 21.Nov.15

Martins Júnior

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

NÓS, JIHADISTAS?...


Por mais que eu queira passar “além do Bojador”, não consigo. E duvido que alguém consiga. Mais concretamente, é  impossível descansar a cabeça ou, sequer, virá-la para a outra margem sem olhar o rio de sangue e lágrimas que corre diante dos nossos olhos. Porque os corpos estilhaçados e os estampidos das   Kalachnikov, moram aqui ao lado, entram pelas portas e janelas do quarto onde dormimos.
Longe de mim empurrar para cima de nós, aqui distantes,  os tornados depressivos em que se afogam os parisienses durante estes dias que são sempre noite escura, sobretudo para os familiares das vítimas. Tão-pouco repetirei análises exaustivas de comentadores especialistas que, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, tentam decifrar-nos o indecifrável. Tentarei apenas colocar quatro ou cinco peças, as mais impressivas,  no xadrez intricado dos trágicos acontecimentos, afim de alcançarmos a síntese essencial das conclusões.
Onde estarão as raízes  do terrorismo islâmico ou, mais precisamente da formação do Daesh, o  auto-proclamado EI, Estado Islâmico? E se alguém vier fazer-nos a pergunta com que titulei este nosso diálogo vespertino dos dias ímpares, que resposta daremos? Nós, jihadistas?
Telegraficamente:
1 – Á cabeça desta e de todas as chacinas do nosso tempo (de todos os tempos!) está o dinheiro. A tesouraria. A máquina registadora. A conta bancária. Venham eles do petróleo, do armamento, da droga, do comércio de carne humana. O alibi da religião é igual  ao das caravelas quinhentistas que supostamente iam alargar “A Fé e o Império”, mas de lá só pretendiam domínio, território, ouro e especiarias…
2 – Da avidez do dinheiro, resulta a exclusão. O “apartheid”. A segregação. O gueto. O desemprego. Os bairros e favelas.  As polvorosas assimetrias e abissais percentagens entre ricos e pobres.
3 – Do ventre incestuoso entre dinheiro e exclusão sai o monstro da guerra. Monstro de sete cabeças que se alimenta da sua própria reprodução. Violência atrai violência. A intifada gera a metralhadora. A metralhadora  deseja  o míssil. Depois, o porta-aviões,   a  insaciável autofagia do corpo-a-corpo no terreno, a guerrilha urbana.  E, por fim, o feto nauseabundo das armas químicas. “Nunca haverá guerra que acabe com todas as guerras”.   
4 – Por mais estranho que pareça, do pântano dos mortos e esfomeados, filhos dessa maldita tríade --- “a economia que mata”, a exclusão e a guerra --- levanta-se o clamoroso grito da repulsa visceral que desperta, sobretudo nos jovens, a sede de heroísmo combativo, que os leva ao cúmulo da esquizofrenia capaz de apertar à cintura  o ferrete da morte e entregar a própria vida abraçados à bandeira do herói  e  à glória do mártir. A tanto chega o misterioso psíquico do ser humano!
5 – Por fim, para abrir portas e dar livre trânsito aos destruidores “quatro cavaleiros do apocalipse” que acabei de enunciar, lá está de serviço a inércia calculista dos líderes mundiais. A passividade interesseira: eu dou-te armas em troca de petróleo, eu ofereço-te tecnologia em troca de estupefacientes e produtos similares.
         Estava  (e está)  no âmbito desta síntese aproximar as evidências do actual estado de guerra que nos rodeia, mas deixo-as, por enquanto à vossa pesquisa. Proponho a metodologia mais expedita: começar pelo “teatro de guerra”  lá longe. E, depois,  regressarmos ao país, à região, à cidade ou à aldeia em que vivemos. Tudo, para respondermos frontalmente  à questão inicial: “Nós, jihadistas”?
HAJA CORAGEM!

19.Nov.15

Martins Júnior

terça-feira, 17 de novembro de 2015

HISTÓRIAS ANTIGAS QUE AS VISITAS NÃO CONTAM



Como nos ensina a oralidade popular, se “o mal ou o bem à face vem”,  ficámos sem saber, ao menos pelo semblante cavernoso de Cavaco,  se o “Sr. Silva” sempre descobriu aqui a “pólvora” para formar o arsenal do próximo governo de “iniciativa presidencial”. Aguardemos  se cumpre ou não a incógnita que deixei na minha última exposição. Agora, o que fica de pé é o passeio alegre de uma múmia ambulante que aqui veio deliciar-se com a criação dos peixinhos em cativeiro, medir o tamanho da banana madeirense, cheirar a farinha de batata doce (todos o ouvimos na comunicação social) e  tilintar os garfos em jantares pagos por nós. Tudo isto, enquanto o país inteiro está parado --- espera aí, sentado --- com orçamentos congelados, planos na gaveta, iniciativas e obras na barriga de aluguer, empresas em sinal intermitente e, sobretudo, a economia, o Povo sem poder seguir viagem.
    Perante a magnitude dos problemas em equação e o clamor de todo o país, , quer à esquerda quer à direita, o nosso “conselheiro Acácio” atira à frente, como um buldózer, o maxilar inferior e abre caminho para emitir uns monossílabos entaramelados, tais como “eu sei, eu sei muito bem”…ou “eu estive, em 1987, cinco meses num governo de gestão”. É preciso haver um madeirense bobo para envergonhar a nossa ilha e suportar “bobagens” destas. Aplicar em tempos do século XXI receitas do século passado! Preciso é também ser um acabado exemplar do bota-de-elástico salazarento a quem nem faltava o mesmo tique de falsete enfatuado. Deve ser a sina da Madeira: servir de “albergue espanhol” a presidentes fora-de-prazo, já desde os tempos do ditador Fulgêncio Baptista, de Américo Tomás e Marcelo Caetano…
Quero com isto dizer que Cavaco, primeiro tinha de dar conta da sua responsabilidade, a de dar posse a um novo governo de Portugal, seja ele qual for, e depois teria todo o tempo do Natal e Ano Novo para espraiar-se na ilha e andar a cumprimentar com o chapéu alheio, em almoçaradas e inaugurações quantas quisesse. Assim, é usar e abusar da nossa condição de ilhéus perante todos os portugueses.
Mas quero com isto dizer mais. De entre todos os governantes e Presidentes da República, Cavaco foi o que mais maltratou a Região. Recordo, para quem desconheça, que foi ele, enquanto Primeiro Ministro, que  obrigou a Madeira a pagar “já” a dívida a Lisboa, através do  leonino e famigerado  “Protocolo de Reequilíbrio Financeiro”. Aí encontrou no presidente do governo regional de então  um aliado tão insensível e implacável como ele, ao ponto de forçar as Câmaras, todas PSD,  a assinar “de cruz” o referido Protocolo, em virtude do qual ficaram as míseras tesourarias dos municípios madeirenses obrigadas a pagar as obras inauguradas pelo governo regional. Uma única houve que se recusou, a do Ponta do Sol. Posso dar o meu testemunho pessoal do quanto foi penoso para o concelho de Machico ter direito a receber 33.000 contos  mensais por via da Lei das Finanças Locais e,  feita retenção na fonte  já em Lisboa, recebia apenas 1/3, ou seja 11.000 contos que nem chegavam para pagar salários!  Tudo isto me caiu em cima das costas nos dois mandatos à frente da Câmara Municipal de Machico, totalizando a soma de 1 milhão e 800 mil contos,  isto é, em moeda actual 9 milhões de euros. Não foi Vasco Gonçalves nem Mário Soares nem Guterres. Foi o Senhor Cavaco Silva, conluiado com o antigo inquilino da Quinta Vigia. Foi também nessa altura que, perante os meus protestos contra aquilo que consubstanciava uma grave intromissão na autonomia administrativa e financeira dos municípios, sim, foi então que o quase vitalício ocupante da Quinta esbracejou e aos quatro ventos proclamou como dogma: “Cavaco Silva é um bom madeirense, o Pe. Martins é um reles cubano”!
Enfim, cenas herói-cómicas de uma ópera bufa que é preciso recordar  e  descrever como “persona não grata” quem deveria ter chegado cá e pedir perdão pela extorsão que fez aos municípios madeirenses.
Não é, pois, gratuita ou partidária a atitude adversa que nutro pelo visitante na hora do “canto do cisne”. Vem de longe, com justificados motivos, pelo mal que nos fez.  E vem de perto, pela mais cega incongruência do seu  argumentário.  Na Madeira, botou palavra e exigiu de todos os países europeus uma resposta à altura sobre os trágicos acontecimentos ocorridos em Paris. E definiu, de dedo em riste: “uma resposta rápida”!
E, para Portugal, que é nosso e não é seu, que pasmada resposta anda a remexer?... Mexa-se e dê a “resposta rápida” que o Povo urge.
Da minha parte, com os dois “dias ímpares” , apenas pretendo observar que  o “bom madeirense Cavaco” está enganado se pensa  ver em cada conterrâneo nosso o carinhoso sorriso das cagarras que visitou nas Selvagens.

 17,Nov.15
Martins Júnior

  

domingo, 15 de novembro de 2015

CAVACO SILVA À DESCOBERTA DE PÓLVORA NA MADEIRA


Os últimos acontecimentos ocorridos em Paris vieram demonstrar que o mundo vive em cima de um vulcão que pode acordar quando e onde menos se espera. Nem adianta adjectivar aquilo que substantivamente pertence ao reino da selva em plena cidade. Entretanto, como tive oportunidade de dizê-lo anteontem, as erupções, parecendo espontâneas, não nascem por geração espontânea. Há um vasto conglomerado de micro-génesis que vai crescendo silenciosamente até alcançar os paroxismos do macro-trágico.  Apontei, a título exemplar,  a sôfrega ambição dos mercados e o domínio, a qualquer preço, da “economia que mata”. Mas há outros micro-climas de teor político-administrativo que também minam a sociedade e de tal forma que daí explodem incontroláveis ataques de nervos, senão mesmo  perigosos focos de desestabilização.
Falo desses epifenómenos criados dentro da própria casa, crispações na política doméstica de efeitos imprevisíveis. E falando destes, sem querer perder muito tempo, refiro-me ao assunto de amanhã: a visita do  Presidente da República à Madeira.  Muitas têm sido as críticas, a nível nacional, contra a veleidade irresponsável que o Primeiro Magistrado da nação vem exibir na nossa ilha, a pretexto de um encontro de economistas ou inauguração de empresas, como se o país nesta altura sem-governo fosse um episódio irrelevante para quem assumiu compromissos constitucionais da maior repercussão na vida de um Povo. Quando tinha e tem à sua frente evidências normativas para  pôr o país a funcionar com a constituição de um novo governo,  o nosso Chefe anda à cata de uma vereda, de um buraco supostamente alternativo ou, pior ainda, dá-lhe para voar nas nuvens, lembrando-nos o imbecil e sádico Bush quando, no ataque bombista às Torres Gémeas, meteu-se num helicóptero a sobrevoar a cidade em chamas. Era inimaginável chegar ao século XXI e assistir ao ridículo de um Presidente da República escarnecido na comunicação social, como que derretido com as cagarras das Selvagens e o sorriso das vacas açorianas…
         Por tudo isto, merecia que se escrevesse na pista do aeroporto uma tarja de peso: “Nesta altura, Cavaco é ‘Persona non grata’ na nossa ilha”. Além das justificadas insinuações do mais descarado apadrinhamento da Direita, esta atitude de um homem que a si próprio classificou como “totalmente insensível”, abre o caminho a um acervo de proposições, as mais delirantes, como seja a Revisão da Constituição para haver já, já, novas eleições… ou tantas quantas até que venham à tona de água os malogrados náufragos,  seus filhos adoptivos. Pelas portas, esta ressaca de Pedro só podia ter vindo dos olhinhos lânguidos de Paulo.
Como cidadão, tenho o direito e o dever de exigir ao Presidente de todos os portugueses que ocupe o seu lugar. E que não use a Madeira como pretexto  para a fuga às suas actuais e insubstituíveis responsabilidades na condução pacífica do país, evitando perturbações ou sobressaltos, a todos os títulos, detestáveis. Tanto mais que o senhor, do alto dos seus quase dois metros físicos e outros tantos de  desadaptação social e intelectual, proclamava que “já tinha todos os cenários na mão e sabia bem o que iria fazer”.
Em todo este confuso labirinto, só lhe acho um presumível mérito: o de vir à Madeira descobrir a pólvora! Onde estará o paiol?--- perguntarão os meus amigos. E eu decifro:. Basta percorrer os dois atalhos que nestes dias têm ficado patentes aos olhos de toda a gente:
O primeiro: o PR pode optar constitucionalmente  por nomear um governo de iniciativa presidencial. O segundo: leiam a capa do jornal “Económico” de quinta-feira passada, dia 11: “Cavaco tem margem para um governo de iniciativa presidencial, mesmo que fique em gestão até  novas eleições”. Autor da proposta: Alberto João Jardim.
Como se usa dizer, entre os dois casos qualquer semelhança é pura coincidência.
Sem mais comentários: Será que o “Sr. Silva” vem convidar o extinto inquilino da Quinta para vigia deste país, encarregando-o de formar o tal governo de iniciativa presidencial?  
No delírio em que esta gente vegeta, no estertor da agonia até Janeiro, nada me surpreende. Esperemos para ver.  Talvez  Cavaco tenha descoberto a pólvora na ilha. Pois o que Portugal mais preciso nesta hora é mesmo  da pólvora, made in Madeira…
A tanto chega o oportunismo  rasteiro e caduco de quem ainda sonha com os moinhos de vento de trinta e seis anos de poder!
Basta de invencibilidades.

15.Nov.15
Martins Júnior


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

QUEM PODE DORMIR ESTA NOITE?



“Quanto ao mais, só poderemos ver quando os parisienses acordarem amanhã de manhã”  --- assim falava o repórter nos ecrãs da TV.
E eu pergunto: “Mas quem é capaz de dormir esta noite”? Não apenas em Paris, mas em todos os continentes, em todas as ilhas e lugarejos onde chega a informação!... Aqui na Madeira, aqui na Ribeira Seca e aí onde você se encolhe diante do televisor!
François Hollande, há pouco,  pedia  calma aos franceses. Mas como? Um turbilhão de emoções desconexas  e conclusões inconclusas confrontam-se no nosso psíquico.  Uma delas, a que mais me assalta neste momento, vem da  memória da guerra subversiva dos tempos coloniais, em que os que ali andávamos não  sabíamos  onde rebentaria a mina letal, se debaixo de um “unimog”,  se nos carreiros do capim, se à beira da caserna. Vejo, aterrorizado, que a estratégia da guerrilha clandestina da selva passou para as grandes cidades, para os estádios de futebol, para os oásis da cultura, as salas de espectáculo. Apetece gritar: “Este mundo não é para humanos, é para monstros ferozes”. E onde param os “turras”? … Talvez perto de nós, sentados à mesa do mesmo café, no mesmo apartamento! Doravante, já não cantaremos “em cada esquina um amigo”, mas tremeremos de pavor pensando desconfiados  “em cada esquina um terrorista”. O Mundo que os homens fizeram!
Transido de espanto  e desnorte, leio --- você também --- a notícia de que são muitos os jovens, homens e mulheres, não tanto dos bairros degradados mas da classe média, intelectual, que são recrutados em França, na Inglaterra, em Espanha e até no nosso Portugal, prontos a lutar ao lado das fanáticas tropas do Estado Islâmico. Mas porquê? Porquê? Quem explica tão abominável desiderato, ainda por cima, sublimado em mística existencial?
         Os analistas arrumam teses e hipóteses, o passado colonialista dos europeus, a falta de articulação dos serviços de  informação entre os países do Ocidente, a desenfreada  indústria armamentista, as arremetidas bélicas dos EUA, enfim, tudo certo e muito mais. A mim, o que mais me revolta e atormenta é ver uma Europa dividida, líderes cegos, de coração de pedra, entretidos em jogos prefabricados atirando os povos entre o eixo norte-sul, os “negrejeiros” exploradores (assim os classificava o nosso Eça)  assolapados nos bancos, nos BCE’s, FMI’s, nas multinacionais,  nos paraísos fiscais,  enfim, na “economia que mata”.  E, mesmo entre nós, as tramas do poder, as birras partidárias, os empates  tacanhos do Presidente. Esta gente onde é que tem a cabeça, onde pensam eles que estão seguros?... Podem arregimentar-se por detrás das muralhas do regime ou do dinheiro, enquanto o terrorismo entra-lhes furtivamente pelas traseiras do palácio, minam a sala do tesouro e esperam a hora da sexta para lhes estourarem os crâneos. O pior são as vítimas inocentes, duplamente estranguladas sem culpa nenhuma.  Como os 153  mortos desta noite fatídica em Paris.
         Por mais que nos queiram iludir com o “espantalho”  (até  disfarçam a pílula chamando-lhe  mito)  da religião, seja muçulmana, seja judaica, hindu  ou qualquer outra, o grande pomo da discórdia universal está no cofre da finança, o vírus de todas as guerras,  que torna, segundo o velho princípio, Homo lupus lupior, “o Homem é o pior lobo de si mesmo”. Do seu mais próximo.
         Quando --- talvez nunca! --- descobriremos que sem justiça distributiva, não haverá paz nem sossego e  nenhum de nós dormirá seguro no travesseiro a que tem direito?

13.Nov.15
Martins Júnior

   

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

VITORIOSO E LIVRE !



Já se sabia.
E já se esperava que o árbitro da vida havia de soar e dar por terminada a partida. Contigo a puxar, a vitória era sempre nossa. Agora é toda tua!
Outros ficarão com a merecida imagem do Sá, ternurento e dedicado, gigante e calmo. “Leão com coração de passarinho”, dizia-lhe eu muitas vezes, repetindo o poema de  Guerra Junqueiro. Onde estava o Sá, a paz estava lá, De tão alto que era, seus olhos mansos desciam ao nível dos nossos,  com o mesmo sorriso franco, que umas vezes era festa, outras ironia fidalga, mas sempre serena e segura. Até nas horas amargas que ele, em finais da sua vida pastoral,  curtiu em silêncio perante a incompreensão de certas hierarquias. Só com os amigos desabafava, com mágoa mas sem rancores. Porque ele era maior que a vil baixeza dos mortais pigmeus.
Mas eu prefiro vê-lo na sua e minha juventude, alinhando nos “Maias”, o club rival do “Lusitano”, a que pertencia o Sumares, (saíu mais cedo do torneio da vida).  No parque de jogos do Seminário da Encarnação e, mais tarde, noutros campos de volley  da cidade com equipas oficiais, era o Sá o puxador  e  eu o seu inseparável passador/servidor. Estou a sentir-me mais leve só de lembrar-me quando lhe levantava a bola e ele, atlético,  vistoso e altaneiro, de braço esquerdo ou direito, de frente ou de costas, fazia estalar o campo adversário e enchia de aplausos as bancadas assistentes.  Ele era ali, de nome próprio, "Arcanjo" dominador na peleja construtiva entre amigos do desporto! Formávamos uma dupla tão perfeita, modéstia à parte, que o velho Nacional, então uma das melhores equipas da modalidade em Portugal (eram os tempos do famosos Serrão, do polivalente Teixeira, já transferidos para mais longe) pretendia incluir-nos  no seu plantel.  Dá-me gosto escrever este parágrafo para demonstrar a quem não saiba que naquela expressão de  pacifista nato morava uma central energética de força vital que, na hora certa, expandia fulgor e chama  à sua volta.
Deixou-nos no dia de São Martinho, numa  manhã clara e efusiva como ele queria fosse a vida de toda a gente.
Desta vez, foste tu que transpuseste a rede fatal do estádio da vida. E, por enquanto, fui eu a fazer-te o “passe” para o remate final. Até que um dia outros me passem a bola para alcançar o outro campo onde já te encontras vitorioso e livre. Como  saem os heróis anónimos na hora do apito final!

11.Nov.15
Martins Júnior

   

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

PRIMAVERAS NO OUTONO


       São de sol e azul os dias primeiros deste Novembro em flor. E é nessa onda aberta que me apetece surfar. Não para falar do clima que a tradição  chama “verão de São Martinho”,  mas para trazer à varanda da tarde três acenos de primavera que nos chegam, de perto e de longe. No meio de nuvens negras como aquelas que cada vez mais escurecem os nossos ecrãs domésticos,  é bom e é saudável encher os pulmões de ar fresco, sobretudo quando ele sopra de desertos longínquos…
O primeiro veio de Myanmar, antiga Birmânia, onde uma mulher, prisioneira da ditadura durante 21 anos, acaba de  ganhar as primeiras eleições livres do seu país  e abriu o caminho para ascender à cadeira de Primeiro Ministro.        É uma epopeia de luta e martírio a sua vida de 70 anos de idade. Defensora dos Direitos Humanos, foi galardoada em 1991 com o Prémio Nobel da Paz, mas impedida de o receber pessoalmente, o que só veio a concretizar-se   em 2012, após a libertação da prisão militar.  Lição de vida e bandeira de esperança para todos os resistentes como ela! Por muito que   custe subir a montanha é lá o lugar vitorioso do nosso Povo.
         A segunda aragem primaveril, lufada de ar puro sobre os antros da podridão, vem de Roma. Pensarão os puritanos do embuste “sagrado” que se trata de um escândalo indigno de apresentar-se à luz do dia. Mas não. Pelo contrário, fez-se luz nos hipócritas aposentos do Tesouro do Vaticano, onde campeia a corrupção, contra a qual tanto se tem batido o Papa Francisco, ao ponto de ver-se rodeado de lobos rapaces, travestidos de cardeais.  Os dois livros recém-publicados abrirão os olhos ao povo crédulo que nem imagina que as “esmolas”  que dão à Igreja não revertem para os pobres mas correm sigilosamente  para os cofres particulares, neste caso para os grandes bancos e para acções em companhias petrolíferas.  
O terceiro sopro de Primavera chega-nos da enigmática Singapura, onde dois povos irmãos, mas desavindos desde 1949, deram as mãos, quando os dois presidentes, Xi Jinping, da China, e Ma Ying-jeou, de Taiwan, puseram fim a quase sete décadas de hostilidades fratricidas.  Exemplo de conquista democrática dos valores que seguram a nação, os dois governantes descobriram o conteúdo da velha máxima: “É a união que faz a força”.
Não obstante a aluvião  das desventura que todos os dias nos atacam  os olhos e a alma, é consolador e construtivo para o corpo e para o espírito sentir passar pelo rosto a brisa suave de notícias positivas. No mesmo feixe de optimismo saudável,  junto a Aliança “Povo- MFE” (Movimento das Forças de Esquerda) que neste outono português nos brinda com a nova atmosfera política de merecida Primavera.

9.Nov.15

Martins Júnior

sábado, 7 de novembro de 2015

SAUDAÇÃO E APELO



Tinha  eu preparado esta minha saudação ao deputado Edgar Silva desde o dia em que se apresentou como candidato à Presidência da República Portuguesa. Na minha saudação, porém, estava implícito um outro desiderato de maior envolvência nacional. Hoje, sábado, com redobrado entusiasmo, retomo a iniciativa, pelos motivos que mais abaixo mencionarei.
Num primeiro olhar, seja-me permitido registar --- lamentavelmente, reconheço --- a fraca repercussão na comunicação social regional  daquilo que deveria ter sido  notícia de grande plano: um homem ilhéu, madeirense de gema, escolhido pelos órgãos  da sua formação partidária para aceder, como candidato, à mais alta magistratura da nação. Para mim, este acontecimento insere-se na esteira gloriosa e dinâmica de certos vultos ilhéus na vida política do país, destacando-se, em primeiro lugar, a personalidade ímpar de Manuel de Arriaga que, embora natural dos Açores, foi deputado pelo Funchal em 1883, repercutiu o mandato nos alvores da República, em Abril de 1911 e  culminou o seu estatuto político na primeira eleição democrática pós-1910 como Presidente Eleito da República Portuguesa em 24 de Agosto de 1911. Outro nome ilustre foi Manuel Gregório Pestana Júnior, nascido no Porto Santo em 16 de Agosto de 1886, figura incontornável da luta contra a ditadura, tendo exercido o cargo de ministro das Finanças em 1924. No mesmo roteiro de políticos madeirenses de relevo nacional, vejo ainda o general José Vicente de Freitas, natural da Calheta, que chegou à Presidência do Conselho de Ministros em 1928.
Interpreto, pois, a candidatura de Edgar Silva nesta linha de afirmação da identidade insular promotora da unidade nacional. Creio firmemente que a sua escolha não foi o resultado de exclusão de partes, pelo contrário, constituiu uma prova da sua resistência a um regime opressor e injusto e, por isso, merece a nossa  melhor atenção. Viu-se na sua apresentação pública um político maduro, interventor  (q.b. a um Presidente da República)  que agitará, juntamente com outros que se posicionam no panorama português, uma nova consciência nacional e a necessidade de um voltar de página neste ambiente de promiscuidade, senão mesmo de proteccionismo a um executivo que não hesita em sacrificar o seu Povo para pavonear-se em Bruxelas, à custa do sangue, do suor e até de lágrimas incontidas dos portugueses.
E é precisamente nesta direcção essencial que tinha preparado a minha saudação:  Que o deputado Edgar Silva utilizasse a sua magistratura de influência (que já a possui por mérito próprio)  junto do seu partido afim de que selasse inequivocamente o apoio ao acordo de convergência de Esquerda na construção do novo Portugal que está a nascer. O Povo Português, consubstanciado nos partidos da oposição, votou absolutamente contra a coligação anterior. E nenhum de nós pode deixar perder esta oportunidade única, sob pena de traição à soberania popular. Verdade que já vimos a luz ao fundo do túnel com a manifesta anuência do BE e do PCP, através dos compromissos publicamente assumidos. Mas é estruturalmente imperativo que se não deixe nenhuma brecha por onde se queira introduzir  a enguia matreira do julgamento presidencial para fugir à Constituição  no que se refere à indigitação de um outro Primeiro Ministro. Está chegando a hora de criar a tão almejada   hora da  Aliança  “Povo-MFE” , isto é,  Povo-Movimento das Forças de Esquerda.  Ainda que seja preciso baixar as armas do “fogo amigo”, limar arestas, distribuir faseadamente  no tempo ideais e soluções estratégicas originais. Como já o afirmei, há um bem maior a defender: demonstrar que a Esquerda sabe unir-se mais que a Direita, quando está em causa o supremo interesse do Povo Português.
“Les jeux son faits” ou “os dados estão lançados”,  bem poderia dizer Sartre nesta hora de combate entre mentalidades e metas.  Hesitar é perder.
Se o candidato Edgar Silva promover dentro das suas fileiras este indestrutível “sentimento nacional”, então terá construído os degraus de basalto rijo para que suba a Belém um Timoneiro Ideal que leve a bom porto a “Jangada de Pedra” que é Portugal.

7.Nov.15

Martins Júnior

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Nos bastidores da vitória da Esquerda Unida - ENTRE O MEDO E O LUCRO


Até ao dia 4 de Outubro, o futuro de Portugal estava directamente nas mãos do Povo. Após o 4 de Outubro, o poder passou para as mãos dos representantes do Povo soberano: a Assembleia da República. Enquanto se não perceber que a soberania originária popular outorgou procuração à soberania delegada nos deputados (o que alguns pretendem acintosamente baralhar) nunca se entenderá que estamos num mundo novo de oportunidades inimagináveis, capazes de alterar a visão estática da política até agora assentada em moldes imutáveis.
Para que os portugueses nunca vislumbrassem esta nova descoberta de estar na política, bem se esforçaram os velhos poderes em semear ao vento que passa os fantasmas do medo mais primário e pré-histórico: se nada for como dantes, se não for como nós, o mundo será um caos, não há alternativa,  teremos um  Portugal suicidário. Apesar de todo o anunciado terror, a soberania originária popular disse que não queria mais o “antes”, repudiou claramente o governo dos semeadores de fantasmas. É esta, entre muitas, a leitura global da votação do 4 de Outubro. A coligação pode ter a presunção, mas não tem o direito, de validar apenas os votos concordantes com a sua governação. Os que votaram contra essa governação são tão válidos e imperativos como os que votaram a favor. Tudo apurado, os que votaram “contra” são a maioria. Se essa maioria soberana, espelhada nos partidos da oposição,  quiser interpretar (como é seu dever) o sentido último da votação popular tem de  ser-lhe coerente e concluir: temos de dar as mãos e apear a coligação de Direita, sob pena de traição à vontade dos nossos constituintes, o Povo Português. É aqui que faz todo o sentido o pensamento de Toncqueville: “os deputados são representantes do Povo soberano, mas  não são representantes soberanos da vontade do Povo”.
Abro um parágrafo para insistir que a intencionalidade maior e conclusiva dos eleitores foi exprimir, pelo voto, aquilo que por tantas e incisivas manifestações em frente à Casa dos Deputados denunciaram assumidamente: derrubar as políticas duras e cruas deste governo. E não há mais volta a dar. É de um requinte mórbido o escrúpulo interpretativo dos insensíveis PSD/CDS que, com as mesmas unhas com que sangraram o Povo, procuram agora com pinças esterilizadas sarar-lhe as feridas, alegando que “quem votou PS não o fez para este juntar-se às outras forças de Esquerda”, como balbuciou o risonho Durão Barrosos, logo ele, em quem o Povo votou para Primeiro Ministro e quando viu a primeira aberta fugiu para a Europa, deixando ainda mais  “de tanga” o  país nas mãos do “voluntário-à-força” Santana Lopes.
Precisamente para serem fiéis à procuração que lhes passou o Povo soberano --- afastar a coligação e as suas políticas --- tanto se têm esforçado PS/BE/PCP em sucessivas reuniões de trabalho. Eles sabem que, maior que o eventual acesso de António Costa a Primeiro Ministro (como repetida e venenosamente tem insinuado a coligação) maior que essa episódica mas inevitável situação, está a vontade de cumprir o superior interesse do Povo Português. Daí, o medo (mas um outro, de sinal positivo) o medo de errar. Chegar ao alto do monte, por caminhos diferentes à partida, eis o grande esforço que a “maioria absoluta” dos eleitores pôs aos ombros dos seus legítimos representantes. Aproximar diferenças, limar arestas, adiar ou distribuir faseadamente os projectos  --- é esta a hercúlea tarefa dos responsáveis pelo futuro de Portugal. A Direita que nem apresentou programa eleitoral anda tresloucada por saber os termos do acordo.  A Esquerda responsável, porém, tem medo de errar  porque tem palavra e honra e não quer seguir o atrevido despudor de Passos Coelho que na campanha eleitoral de 2011 prometeu o “céu” aos portugueses e, logo a seguir, criou-lhes o inferno da mais vil austeridade.
Entre o medo de errar e os lucros adquiridos! Eis o drama e a glória das forças de Esquerda. Imagino os labirintos intra-partidários em que se debatem dirigentes e correlegionários, dentro da própria casa, para acautelar e, se possível, ampliar interesses, lugares, influências e até ideais e linhas de acção: uns quererão assegurar o posto e altear a bandeira do partido; outros, de mãos livres e alma inteira, querem ir mais além e demonstrar, pelo menos em quatro anos,  que governar não é monopólio da Direita, pelo contrário, governar para o Povo é apanágio e privilégio da Esquerda.
Quem me dera colocar esta toalha sobre a mesa das conversações ou no palco dos plenários de militantes. Para esconjurar os “zombies” da Direita que ameaçam com o fantasma da Europa e respectivos tratados, E em nome do Povo proclamar esta evidência: já que os deputados e governos da coligação foram  procuradores e advogados de Bruxelas em Portugal, doravante os deputados e governantes da Esquerda Unida serão os fiéis representantes e legítimos defensores do Povo Português na Europa.
Seria mais cómodo segurar a cadeira e ficar na oposição em perpétua vocação de protesto. Ir à luta, assumir riscos, inclusive o de pisar inertes linhas vermelhas --- isso é que custa. Mas isso “é o que falta”, aqui e agora. Com esta certeza, porém, no horizonte final:
Ganhando, ganhamos todos. Perdendo, perdemos todos.


5.Nov.15

Martins Júnior

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

NO CORAÇÃO DE LUATY BEIRÃO BATE O NOSSO CORAÇÃO!


         Irresistível e necessário revisitar Pessoa, a síntese de todas as fulgurações que emanam da infinita galáxia da história dos homens e das coisas:

                            Aqui ao leme sou mais do que eu
                            Sou um Povo que quer o mar que é teu

         De Ulisses ao Gama, de Moisés ao Cristo, de Joana d’Arc  a  Gandhi e Luther King. E de todos a Luaty Beirão! A causa de um só homem  torna-se o íman de todo um Povo. A sua luta atravessa  todas as latitudes da história humana e faz do planeta um inteiro e único campo de batalha. Em Luaty Beirão mora uma legião, cujo clamor --- ora clandestino e abafado, ora ostensivamente manifesto --- faz aproximar o tsunami perante o qual as ditaduras terão de vergar-se, a curto ou a longo prazo. Tal como a fatídica noite do fascismo em Portugal amordaçou, deportou e esquartejou centenas, milhares de resistentes anónimos, assim também todos os que têm pago (e muitos são, exemplar o do jornalista Rafael Marques) com  a prisão e a própria vida o posicionamento corajoso contra um neo-colonialismo, mudado de cor, politicamente identificado com a violência doméstica entre irmãos da mesma etnia, todos eles “fortalecem mais a independência de Angola do que o regime de José Eduardo dos Santos em 36 anos de regime”, escreve Alexandra Lucas Coelho. E acrescenta: “O que Luaty moveu em muitos milhares de pessoas é irreversível”. A greve de fome de Luaty, em 36 dias,  ultrapassou até os sucessivos jejuns de Gandhi, entre 1914 e 1948, sendo de 21 dias o mais prolongado, em protesto contra o colonialismo britânico e a supremacia dos brâmanes. Mas deixou raízes que se abriram em flores e frutos historicamente pujantes.
         Não vou reimprimir aqui a eloquente soma de apoios que, em África e em Portugal, têm surgido em prol da causa heroicamente propugnada por Liaty Beirão e seus companheiros. Não resisto, porém, a traçar em breve síntese o cenário sóciopolítico de uma África, onde são frequentes e sangrentas as investidas do poder contra quem se lhe opõe, as quais transformam  os imensos territórios desse continente em sudários de sangue .e horror, entre abusos inomináveis e guerras civis, mais devastadoras que as guerras coloniais. Será talvez o inevitável percurso de séculos da escravatura em direcção à conquista da autodeterminação e da independência. Mas eu que, mesmo metido forçadamente na guerrilha entre portugueses europeus e portugueses africanos, sempre aspirei no mais íntimo de mim mesmo e em atitudes concretas ao respeito e à independência desses povos, sou obrigado a reconhecer, com mágoa e revolta, que os africanos, uma vez no poder, herdaram do branco o pior que o branco tinha: a prepotência,  a ganância do dinheiro, a desumanidade  do “dente por dente, olho por olho”, enfim, o regresso às lutas tribais de outrora. Correndo o risco de desagradar aos poderes instituídos, manda-me a consciência atestar o que, de forma directa, observei no pós-independência. Temo que se esteja perante um estranho fenómeno de auto-racismo.
         Falei na luta entre tribos. Porque as vi com os meus próprios olhos.  E aí esteja talvez a explicação de determinados abusos do poder. É que muitos anos, muitas décadas faltarão ainda para que as diversas etnias africanas interiorizem o sentido de nacionalidade, naquele conceito de unidade de um povo sob a mesma idiossincrasia e a mesma bandeira. É este o parecer unânime dos sociólogos e antropólogos que se debruçam sobre a realidade africana, como refere o excelente trabalho de investigação de Joana Gorjão Henriques. Cito, por todos, Elias Isaac, nascido no Lobito e director  da ONG “Open Society Iniciative of Southern África, situada em Luanda: “Houve independência, mas não descolonização das mentes”.  Paulo Faria, cientista político, autor de uma notável análise sobre o mesmo tema, completa assim o pensamento: “Angola é um mosaico de vários grupos étnicos e matrizes linguísticas. Cada grupo tem a sua língua e estes grupos vão construir a sua identidade etnopolítica”. E continua: “A Angola pós-1975 vai ser o produto disso e uma das grandes bandeiras foi vender a ideia de “um só povo, uma só nação”, fazendo um corte com uma Angola que tem este mosaico multiétnico e racial”.
         Sobre estas milenares placas tectónicas, tentaram construir uma  generalizada independência  dos vários países africanos. Puro engano. As movimentações, de dentro e de fora, emergem de tal forma que o poder concentracionário tem de defender-se e arregimentar-se até ao último cartuxo,  afogando de imediato e por todos os meios ao seu alcance quaisquer tentativas de desestabilização do “império deles”. Em cada esquina, em cada livro vêem um conspirador. E assim se formam as ditaduras, abertas ou disfarçadas. Nós, madeirenses, temos no minúsculo território civilizado da ilha uma amostragem desses comportamentos autocráticos, quando, a pretexto de autonomia, mantivemos no poder um homem que, orgulhosamente só, se ufanava de estar no poder mais tempo que Salazar e, pelos vistos, mais que os 36 anos do presidente angolano…
         Mil vezes dobrada luta a de Luaty Beirão e seus companheiros de cela! Estamos com eles. E saudamos o fim da greve de fome. É imperioso que ele se reerga e avance decidido como bandeirante de uma causa que nos toca a todos. As ditaduras islâmicas e o dramático cortejo de refugiados que chegam à Europa aí estão para demonstrar que é a montante que se ganha a batalha pela liberdade. e pela universalidade dos direitos humanos neste globo que é cada vez mais aldeia.  Sublime, porém, é a carta que Nuno Álvaro Dala, um dos 15 prisioneiros escreveu em nome de todos e que a citada jornalista trouxe a público: “Não odiamos o Presidente da República nem aqueles que executaram a trama urdida contra nós. O perdão é o melhor caminho… Pedimos a todos os angolanos de bem que perdoem a essa gente”!
         Em homenagem aos resistentes aponho idêntica mensagem dessoutro prisioneiro lutador pela liberdade, o nosso, muito nosso poeta de Machico, Francisco Álvares de Nóbrega,  num dos seus sonetos:
                  
                            “Das almas grandes a nobreza é esta”.
          
         É na grandeza de alma de Luaty Beirão e de todos os “Luaty’s” do mundo inteiro que cada um de nós,  à semelhança do “homem do leme” de Fernando Pessoa, deveria bradar energicamente no rosto de todos os ditadores: “Aqui na cadeia ou no exílio, aqui na ilha ou mais além, sou mais do que eu. Sou um Povo que quer o reino que dizes ser teu, mas que  é  nosso e será sempre nosso”!

3.Nov.15
Martins Júnior