quinta-feira, 29 de outubro de 2015

SÍNODO DOS BISPOS: PROCURA-SE, VIVO OU MORTO!


Não sei por onde escolha --- é o que me diz a mão com que escrevo. De entre as rajadas de vento que passam vou ficar com aquela que, ao menos pelo visual majestoso, marcou o início da semana: o Sínodo da Família em Roma. Muitos abanões espadanaram por esse mundo fora. Para uns, foi a ameaça de um “cisma prático”.  Para outros foi a derrota do Papa Francisco.  Bento Domingos interrogava-se, por duas vezes consecutivas no  jornal Público; “Sínodo  das Famílias ou Sínodo dos Bispos”?  E para o grande auditório do mundo global, imagino eu, aquilo foi mais  uma não notícia e, se o foi, não passou de um episódio das clássicas novelas romanas.
Mas o caso foi muito sério. Não pelos cenários, mas pelos bastidores. Não pelo guarda-fato dos figurantes, mas pelo dentro da peça representada. Não pelo que se disse e aprovou, mas pelo que se não disse e obliterou. Concretamente: é verdade que os debates incidiram sobre questões fracturantes, endurecidas e fossilizadas de séculos --- a família, o casamento e seus derivados --- e por isso nunca daí poderiam esperar-se consensos. Para dourar a pílula, os 270 bispos e cardeais convidaram  18 casais e algumas mulheres. Esperava-se que estes últimos, considerados legítimos representantes dos verdadeiros destinatários do Sínodo, (as famílias) fossem ponderadamente ouvidos nas assembleias e dali saíssem conclusões mais amplas para o mundo exterior, abrindo  mentes e corações sensíveis aos problemas actuais, realidades novas onde está mergulhada a instituição familiar, fruto do inevitável processo histórico.
Mas não. Prevaleceram os fósseis, as teses dogmáticas, o imobilismo ou, mais precisamente, as almofadas bolorentas  em que dormitaram os velhos cardeais, solteirões oficiais à força, que durante as reuniões só acordavam sobressaltados quando alguém desafinava do coro dos anciãos, como nas tragédias gregas. “Uma Igreja moribunda, ligada  às máquinas”, escreveu no seu blog o meu amigo Padre José Luis Rodrigues. Na mesma linha contestatária, conta a historiadora Lucetta Scaraffia, 67 anos, convidada a participar no Sínodo, ela mesma responsável do suplemento feminino do jornal vaticano L’Osservatore Romano: “Quantas vezes tive que reprimir a  impaciência rebelde que me assaltava, ao longo dessas três semanas…Mas o que mais me chocou foi ver a ignorância total dos cardeais quanto à condição feminina, a sua forma de tratar as  mulheres como sendo inferiores, da mesma forma como tratavam  as freiras que, quase sempre, lhes servem de criadas domésticas”. (Le Monde, edição de hoje).
Para quem segue com alguma atenção esta metamorfose que se opera no Vaticano, seja-me permitido transmitir a leitura holística que faço  do Sínodo. Ele inscreve-se naquela dinâmica que o Papa Francisco pretende instaurar, ou seja,  não uma  Igreja impositiva, mas uma Igreja propositiva e participativa.  São os cristãos que devem construir a sua Igreja, como Povo de um Cristo permanentemente actualizado e aberto. Poderíamos dizer, se não fora a corruptela do termo, uma Igreja Democrática. Era assim nos primórdios fundacionistas  do cristianismo, até na indicação dos   seus próprios bispos. Depois, tudo se foi degradando, passou o povo cristão à condição de servo, humilde, obediente, proibido de pensar e  até de ler a Bíblia, enfim, uma ditadura sacralizada de liturgias e sanções canónicas, banais caprichos de classe que  os homens da religião transformavam em mandamentos divinos.
E agora estamos nisto. O Papa Francisco --- dificilmente teremos outro igual --- bem se esforça para que sejam as bases, os cristãos a pronunciarem-se sobre aquilo que à sua Igreja diz respeito, mas em vão. Já aqui transcrevi o pensamento de um reconhecido teólogo: “Enquanto  os cristãos   continuarem  à espera  de um   exclusivo líder carismático, a Igreja perderá  a sua vitalidade, a sua  identidade essencial”. Deve ser o maior desgosto deste  Grande Reformador:  pensar que, depois da sua morte,  tudo fique  na mesma inércia e volte a Igreja ao armário dos esqueletos, manipulada e contorcida por gente vestida de vermelho e enegrecida de ideia ou, como dizia, o Mestre:  “sepulcros caiados de branco por fora, mas cheios de ossadas por dentro”.
É este um assunto inesgotável, pleno de esperança para quem sonha, mas causa perdida à nascença para a maior parte dos cristãos. Porque se demitem do seu mandato, porque lhes é mais cómodo rezar que pensar. Batemo-nos pelas nossas capelas futebolísticas e partidárias e damos de barato o templo da nossa crença. Ninguém espere  que a seiva criadora venha de cima, dos paços episcopais, das mitras-altos capuzes de carnaval ou das colunatas do Vaticano. É do chão, das raízes que emana a produção renovadora. Para debelar o fascismo dos anos trinta foram precisas décadas de luta. A este propósito, ocorre-me  aquela resposta que um simpático clérigo portuense, então secretário do, agora,  bispo do Funchal, me deu sobre a inércia diocesana em resolver o caso Ribeira Seca: “Sabe, amigo, a Igreja é uma instituição que já tem  dois mil anos”. Percebi-lhe a ironia, em jeito de crítica ao que por aqui acontece.
A solução é o que se vê, a “debandada”, como dizia o Papa Francisco aos bispos portugueses na recente visita a Roma. Tenho para mim que a Igreja institucional não passa de mais um adereço da etiqueta social. Quanto mais opulenta e magnificente  mais servirá  para igualizar-se aos “príncipes deste mundo” e defendê-los nas suas refregas (como fez ontem o cardeal Patriarca de Lisboa, a propósito de Cavaco Silva) e, em ricochete, para menorizar os crédulos dos seus rituais, melhor ainda, citando Lucetta Sacaraffia, trata-los com tratam as freiras, criadas domésticas.
Se não houver cristãos esclarecidos e actuantes, o Papa Francisco perderá sempre, por mais sínodos e conclaves que houver. Ele precisa de nós.
Também aqui, a Hora é Nossa!

29.Out.15

Martins Júnior  

terça-feira, 27 de outubro de 2015

AS DORES DO PARTO DESTE PAÍS…

       

                                                                                                                                                                                                                                                                  Está chegando a hora da graça de 2015, em cujo seio Portugal dará à luz     o  ocupante de um novo trono. O parteiro, pelo que se tem visto, é o velho ocupante de     Belém, pois que só será “rei” quem ele quiser. Ainda que seja um nado-morto, tal como já o provaram as mais recentes ecografias políticas, será esse, o nado-morto, que Cavaco Silva pretende entronizar em São Bento. Dispenso-me de repetir as, de todos os quadrantes,  ásperas censuras ao seu discurso para o qual, ao que parece, o senhor terá tomado um reforçado estimulante gutural afim de  disfarçar o falsete mal digerido, carregado de ameaças sepulcrais.
         O que, porém, mais nos emociona e enternece é a romagem de afectos ao santuário do Rato, os pedidos de conversão, as promessas de assentos na bancada governamental, logo de entrada a armadilhada  cadeira do “Irrevogável”, enfim, uma algaraviada colorida, desde o afã do “pater-famílias” de Boliqueime até à sedução feminina das Teresas, a cristianíssima Caeiro e a democratíssima Leal Coelho. São tais as juras desta gente que até me cheiram a assédio, senão mesmo a suborno e, no limite, a esturro. “É a política, estúpido”, dir-me-ão os sabidos comentadores.  Eu sei, mas não havia necessidade de se exporem tanto nas rotundas  da cidade comunicacional.
         Não me preocupam estas negaças minadas, porque os deputados são um povo adulto que representa outro Povo Maior. Não se compram nem se vendem nem querem  provar sequer o “queijo limiano” lá das bandas da coligação. O que seriamente ainda me estremece é o eventual excesso de zelo dos  três partidos portadores da expectativa nacional.
Seria útil proceder à anatomia política de cada partido para fundamentar a minha preocupação. Muito rapidamente, em duas vertentes. A primeira tem a ver com o ADN (os angariadores coligados chamam “idiossincrasia”)  das formações partidárias. Cada partido tem a sua árvore genealógica, as suas raízes históricas, ideo-programáticas, que fornecem a seiva ao tronco, aos ramos, aos frutos, o que só por isso merecem o maior respeito e consideração. O pior é quando a árvore original, a pretexto de consolidar-se, se padroniza, se petrifica até transformar-se em monumento de bronze maciço, puro e duro, ídolo de culto cego, mas sem alma lá dentro. É aí que a forma absorve o fundo, o império rigorista faz do militante um vassalo submisso ao suserano. E é aí também que a inflexível pureza ideológica cai no labirinto do obscurantismo seguidista. Quando assim acontece, tais partidos não evoluem, antes pelo contrário, cristalizam e tornam-se em meros partidos de manutenção, até nas votações obtidas. A um amigo meu, militante activo, dizia eu, um dia destes: ”Parece-me que a vossa organização se assemelha à velha cúria vaticana, com os mesmos cardeais inflexíveis e puritanos, lançando anátemas sobre os clérigos desalinhados do dogmatismo romano”. Ele até achou graça e, com um sorriso, sublinhou tacitamente os meus dizeres. Não queria prolongar este exercício de anatomia partidária, justamente porque estamos em hora de unir e não de perorar.
A segunda vertente consiste na estruturação orgânica da empresa, chamada partido. Não se pense que a organização partidária é só ideia, pesquisa de propostas parlamentares, luta social. É também empresa, com hierarquias, administração, funcionalismo e demais encargos ou até merecidas benesses  colaterais. Eu só queria saber,  nessas arruadas gigantes da coligação,  quantos braços erguidos têm a outra mão na mesa do orçamento estatal! Sempre foi assim. Impressionou-me vivamente a citação de um texto escrito em 1915 pela pintora modernista  Sónia Delaunay, refugiada das guerras europeias, em Vila do Conde:  “Os políticos não estão a actuar, olham apenas para os seus próprios interesses. Os esfomeados, um dia, também se revoltam”.  Há 100 anos!!!  Ela referia-se aos regimes totalitários de onde fugira. Mas, mutatis mutandis, os partidos democraticamente estatuídos,  se lhes faltar  permanente vigilância, não estão imunes a tais tentações.
Feita esta incursão breve ao interior dos partidos e perante a gestação de uma outra  alvorada em Portugal, o meu maior desejo era fazer chegar aos partidos da esquerda portuguesa o clamor de quem espera ver nascer uma Nova Ordem Europeia, a começar por este país do extremo sul do Velho Continente:
Esta é a hora! A Nossa! A hora de provar que governar Portugal não é monopólio da Direita nem das suas sofisticadas coligações. É chegado um Tempo Novo em que a Esquerda Unida toma as rédeas do poder em prol de um Povo que avidamente suspira por Ela. Soa aos nossos ouvidos na amplidão atlântica, continente e ilhas,  o clarim  vibrante de ganhar esta  guerra. Não estamos condenados sempre  às derrotas, por divisões internas, como também não queremos vitórias morais, parcelares. Queremos a Vitória inteira. Tal como na guerra não se limpam armas, também nesta aliança “Povo-Forças de Esquerda” esqueçamos interesses e pruridos ideológicos de circunstância para içarmos na torre mais alta de Portugal a bandeira  verde-rubra  empunhada pelos braços daqueles  que sempre deram  corpo e alma por uma verdadeira “Nação Valente e Imortal” ao serviço da grei, ao serviço do Povo que lhes outorgou o poder para derrubar quem defraudou os nossos melhores sonhos de viver condignamente.
Ao menos, por quatro anos, vamos reabrir “as portas que Abril abriu”!

27.Out.15

Martins Júnior 

domingo, 25 de outubro de 2015

ENTRE MADEIRA E SETÚBAL : SAUDAÇÃO E ABRAÇO


Na diversificada oferta dos hipermercados noticiosos deste fim-de-semana, abasteci-me mui particularmente  num cabaz que nos toca a todos, ilhéus, sobretudo porque dentro dele  encontro aquela simbiose tão rara, qual seja a de juntar a insularidade à universalidade. Mais concretamente, tocou-me o acontecimento ocorrido hoje em Setúbal em que um homem da ilha, mantendo-se fiel à ruralidade pura dos nossos campos e das suas gentes, faz esta apelativa declaração de princípios:  “O madeirense não é uma pessoa isolada, a pequenez da Madeira não é limitativa, pelo contrário, abre-se à grandeza do mundo…. Gosto imenso da minha ilha, mas não me fecho ao tempo em que vivo, porque Deus é maior que tudo isso”.
Está dado o mote para a homenagem que a comunidade da Ribeira Seca prestou a um nosso conterrâneo do concelho de Machico, nas três celebrações eucarísticas deste domingo.
Entretanto, não esqueço que esta entrada na diocese de Setúbal coincide com dois outros factos similares: o solene encerramento do Sínodo dos bispos em Roma e, proximamente entre nós,, a  entrada em funções  dos dignitários políticos de Portugal. Aproximei estes dois eventos para dizer que assim como na tomada de posse destes últimos não será curial a Igreja marcar presença canónica, assim também não me seduz, na catedral sadina, a ostensiva presença de mandatários políticos. Que o fizessem a título pessoal, a um nosso compatriota, muito bem. Mas a título oficial,  em nada vem valorizar (bem pelo contrário) uma cerimónia que, pelo seu sentido definidor, quere-se-a marcada por uma expressão de júbilo evangélico, despida portanto das lantejoulas protocolares das ribaltas mundanas.  É uma opinião, tão livre e discutível quanto o seu oposto.
Prefiro, pois, juntar a  investidura episcopal deste domingo à magna reunião de trabalho sobre a Família, mais expressamente, o Sínodo dos 270 bispos em Roma. Esta minha preferência tem a ver com a actual conjuntura dogmático-pastoral que (felizmente, enfim!) a Igreja atravessa, algo de novo nesta sociedade milenária, pois que há debate de ideias, há sensibilidades distintas sobre uma mesma causa, procura-se o humanismo “versus” legalismo, promove-se a pedagogia dos povos em vez do  anquilosado magistério desencarnado da História que nos cabe escrever e construir.    Mais se acentua  esta paridade entre os dois acontecimentos, sendo publicamente conhecidas as duas frentes de luta pela redescoberta da Verdade: de um lado,  bispos e cardeais identificados com a nova mundividência crística de Francisco Papa e, do lado oposto, cardeais e bispos ferreamente opositores. Quanto aos bispos portugueses, são tímidas e escassas as pègadas do Pontífice das periferias e da inclusão. Na Madeira, tivemos, como residentes,  bispos da esperança e do sorriso, mas morrem por aí, nas praias do sorriso e da esperança, quando não da opacidade e das alianças pouco recomendáveis.
A este propósito, cito o jornalista vaticanista André Paul, na edição de Le Monde  deste domingo: “A vontade do Papa de criar as linhas verticais de uma Palavra situada entre o alto magistério e os cristãos de base não faz dele um  progressista, mas sim  um “expert en humanité” (um especialista conhecedor da humanidade),  próximo dos homens e dos seus problemas”.
Onde pretendo chegar com estes considerandos aparentemente desconexos em relação à Saudação ao novo bispo José Ornelas da Carvalho?  Já o digo. É que a sua nomeação para uma cidade problemática como Setúbal, com as condicionantes de outrora (aquando do bispo Manuel Martins, a quem os exploradores do povo chamavam de “bispo vermelho e comunista”) e os problemas de hoje,  pois a escolha de um homem, conhecedor de outras paragens do interior de Angola, fiel à terra, sensível à condição humana, faz-me prever nele um aliado firme do Papa Francisco nesta alvorada de uma genuína evangelização.  E vou prová-lo, transcrevendo  um excerto da sua conferência, do melhor que ouvi no Congresso dos 500 anos da diocese do Funchal, em Setembro de 2014. Chamo a atenção para o facto de, na altura, ainda não estar sequer anunciada  a encíclica Laudato Si que o Papa Francisco iria publicar, sobre a ecologia. É de pôr-nos em sentido … e marchar, marchar!
“Uma ilha é um espaço onde fazem falta a criatividade responsável, a liberdade concertada e a coragem de crer e de sonhar… Uma ilha aberta ao mundo tem necessidade da ecologia evangélica que assomou diversas vezes aos nossos diálogos:
·        Uma ecologia da terra, do apreço pelo dom precioso que nos foi dado para usufruir, mas igualmente para guardar e cuidar;
·        Uma ecologia humana que foge à tentação da monocultura do pensamento único, privilegiando a diversidade de linguagens, de soluções e de culturas;
·        Uma ecologia eclesial que se propõe  sempre como serviço e não dominação, casa aberta ao mundo e à sociedade, expressão do coração misericordioso e universal de Deus. É importante alimentar assim o coração das pessoas, para dar coração ao mundo novo que está nascendo.”
O Papa Francisco não teria dito melhor. 
É esta a melhor Saudação que posso endereçar ao novo bispo da cidade do grande sonetista Manuel Maria Barbosa du Bocage, companheiro de cela do nosso Francisco Álvares de Nóbrega na cadeia do Limoeiro, por defender os ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Que a geminação histórico-literária, realizada em 30 de Maio de 2007 entre Machico e Setúbal, nas comemorações do bicentenário dos “gémeos-poetas”  proporcione ao novo líder espiritual de Setúbal mais um suplemento de inspiração para a ingente tarefa que o espera. E que o Atlântico que nos separa faça chegar a esta ilha reflexos cintilantes da sua mensagem renovadora.

      25.Out.15
      Martins Júnior



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

DESCUBRA AS DIFERENÇAS --- Cenas que não gostaria de tornar a ver…


São torrenciais as bombadas  de tinta crítica  e fizeram-se intermitentes os relâmpagos de jornais, folhetos e folhetins televisivos sobre indigitações políticas e tomadas de posse, ainda mais intensos  do que a meteorologia  tem  provocado nestes últimos dias. Pelo que, hoje  vou “arrecolher-me” da chuva  e reservar para outro dia os efeitos que tal barafunda  em mim tem causado.
Nada melhor que a alienação dos estádios de futebol para nos  desviar dos sérios pesos pesados que nos deitam à frente dos olhos. É, outra vez,  do espectáculo rectangular que me vou ocupar, sabendo que não recolherei a simpatia de todos os meus amigos. Serei mais breve que habitualmente porque o trabalho a desenvolver  deixo nas vossas mãos. Quais as diferenças?
Dou já o mote, manifestando abertamente o horror que estes dois cenários me provocam:  primeiro,  o dessa  multidão desesperada e faminta que foge à guerra e procura  um abrigo, seja num campo de refugiados, num armazém, num estádio. O segundo cenário é o da entrada e da saída das claques esfomeadas de cio bélico, antes e depois dos “derbies”. A minha repulsa advém de um pormenor visual que logo os identifica: um pelotão de polícias sofisticadamente apetrechados que se distribuem por todo o perímetro dos caminhantes,  formando na vanguarda um paredão que, à falta de melhor, classifico de muro cinzento da vergonha. Esta é  a semelhança.

E as diferenças?...  São evidentes os contrastes entre os que chegam --- sofridos, cabisbaixos,  carregados de sacos e farrapos, os únicos bens que lhes restam --- e os que avançam para a arena aos gritos, olhos em fúria, munidos, quantas vezes, de “material de guerra” pronto a disparar, como  recentemente aconteceu. Uns  procuram  a paz, outros a guerra. Aqueles só querem uma mão amiga que os sossegue do medo; estes atiçam os braços incendiários para desassossego da multidão. Aqueles abominam as balas assassinas;  estes transformam o esférico de couro em arma de arremesso.
Preferia não  ver o exército armado encabeçando os tristes refugiados., embora se justifique para assegurar  um bem maior, a protecção. Mas, sem dúvida, mais repugnante se me afigura esse paredão fardado à frente de centenas, milhares de jovens, por esses estádios fora, temendo-se o pior de um fenómeno destinado à festa, à alegria competitiva, enfim, ao bem estar cívico e psíquico dos seus espectadores.  E de quanta  lavagem de cérebro e de não menos corrupção são vítimas esses jovens das claques,  puxados  a cordel  por  quem se esconde na sombra de uma secreta  inimputabilidade!
Debrucei-me hoje sobre matéria, para mim, tão rasteira, precisamente porque sigo o pensamento atribuído a Aristóteles: “Nada do que é humano me é estranho”. E por aqui me fico para não incomodar  quem se rege por outros critérios. É nesta alucinação colectiva que somos arrastados pelos noticiários e tempos de antena que massacram até à exaustão em todos os canais e que conduzem a escândalos financeiros e assimetrias sociais inaceitáveis,  como a que hoje trazem os jornais:  “O jogador Xis  ganha 17 milhões/ano”. Assim fizemos o mundo.    
            Domingo próximo, espero não ver cenas destas que aproximam os seus actores às hordas de assaltantes gulosos de guerrilha.
            Ficam para a próxima outros assaltos, as tais investidas políticas que ameaçam perpetuar em arenas os “forum’s” da ciência e da arte da verdadeira cidadania. “Porque nada do que é humano me é estranho”.
                       
23.Out.15

Martins Júnior

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

QUEM TEM MEDO DE UM NOVO PORTUGAL?


Nunca se agitaram tanto as águas neste país à beira-mar plantado. Tenho para mim que nem Vasco da Gama sentiu  ranger tanto o cavername das naus ao passar o Bojador como agora se agoiram comentadores, locutores, políticos havidos e políticos-a-haver nesta canoa a boiar no Atlântico. É a grande incógnita de quem será o timoneiro durante as quatro estações que dura o mandato governativo. Da incógnita  passa-se ao medo e do medo às ameaças sobre um Povo, sobretudo o incauto povo, porque  miúdo e pouco esclarecido.  
Já quase  tudo e de todos os quadrantes  foi dito nesta iminência de um parto antecipado de Belém. Belém dos Jerónimos, entenda-se. Entretanto,  há quem, agarrado ao leme da coragem e do bom senso,  não trema diante do “mostrengo” que nos pintam. Estou nesses.  Bom senso  na interpretação dos dados e coragem perante o arco de uma nova ponte.
Sobre o caso, aqui deixo alguns tópicos, susceptíveis  de  desenvolvimentos maiores, que ficam ao critério dos analistas, afinal, à consideração de cada um de nós.
Começo  pelo insolúvel enigma que resulta da primeira  incógnita:  Como é possível que o partido mais votado não encabece a governação do país?  É possível, desde logo, porque  é constitucional. E porque radica mais fundo, ou seja, no conceito de soberania originária: o sufrágio directo e universal.  Consideremos este conceito como que de geometria simples, linear, aritmética,  Ultrapassado  porém  o sufrágio,  a  soberania transforma-se em poder delegado, soberania delegada nos partidos. Em contraponto, será uma geometria algébrica, poliédrica, se quisermos, dado que se apresenta com tantos  contornos  quantos os partidos. E agora, recomeça a incógnita:  Para que serve este poder, esta soberania delegada, quais os objectivos primários? Em termos singelos, digamos que para o bem-estar dos seus constituintes, o Povo. Como lá chegar? No douto veredicto do actual Presidente da República, condição “sine qua non” é o princípio da “estabilidade governativa”. Passemos adiante e logo descobrimos que no nosso ordenamento jurídico-constitucional,  a estabilidade está pendente, não do voto universal e secreto,  mas única e exclusivamente do mandato dos deputados da Assembleia da República. Assim o prognosticou o Presidente, antes de realizar-se o acto eleitoral. E com toda a lógica, não apenas formal, mas constitucionalmente material. E de tal forma que os deputados, em maioria  e  seja qual o seu partido, podem depor o governo em minoria, mesmo que unilateralmente tenha sido ele  o mais votado. Quem quiser de outro modo, rasgue a Constituição da República Portuguesa , substitua-a por um  outro ordenamento jurídico. Só se espanta  desta evidência quem, como o governo da coligação, fez tábua-rasa do Tribunal Constitucional, à semelhança do Padrinho-Presidente que o considerava uma “força de bloqueio”.
Em conclusão:  Na nossa democracia representativa, o Povo é quem mais ordena, é verdade, mas só até à urna de voto. Daí em diante, é outro o normativo: o Parlamento é quem mais ordena. Da minha parte ( e ainda que nos reste a figura do Referendo) preferia a força imperiosa da democracia participativa. Mas o que está escrito --- está escrito.
Encostados às cordas neste primeiro combate, os vencedores na noite do 4 de Outubro, mas vencidos no dia da verdade parlamentar, avançam com outro “mostrengo”: o risco!  Logo à mão, o risco do desentendimento inter-partidário --- três partidos com programas diferentes! É legítima a dúvida. Mas quem é o vidente moralista que levanta a dúvida? Precisamente aquele ou aqueles que, a meio do percurso,  ameaçaram deitar abaixo a governação com o famoso “irrevogável” . Tão amigos que eles eram…  e se não fora o Padrinho-Presidente,  já o traquina de quota mínima em São Bento teria deitado tudo ao rio!  Com que autoridade moral apontam o dedo aos que querem unir-se pelo superior interesse da Nação?
Outro risco: o do exterior. Dos investidores, dos banqueiros,  dos credores, dos BCE, FMI e afins. É o malfadado capitalismo financeiro, a “economia que mata”.  Mas àqueles, sempre os mesmos, que decretam “não haver outra alternativa “  respondem economistas e abalizados analistas que há outras vias de obviar ao Tratado Orçamental  que não o opressivo  regime austeritário. Em política, como na vida,  nem tudo se reduz ao exclusivo paradigma do preto-e-branco. O mesmo se há-de dizer de outros item’s  programáticos --- NATO, MOEDA ÚNICA, etc.. “Natura non fit saltus”,  sentenciavam os antigos. A História, também, não se faz aos saltos. Na vida dos Povos, há condicionalismos que nos fazem “dar um passo atrás para ganhar dois passos à frente”.
Ademais, não somos só nós que  queremos  quebrar as alcavalas sanguessugas que os agiotas do planeta nos lançam ao pescoço e ao bolso. Há outros vizinhos  nossos, oprimidos,  que esperam a sua hora. Antevejo que a luta do Sirysa não vai ficar pela austeridade nua e crua que lhe impuseram. Em Espanha, o “Podemos” aguarda o derrube da direita serventuária de Bruxelas. E daí por diante.
Não posso deixar de denunciar a mesquinhez de carácter dos amargurados detentores  da maioria-em-minoria quando, esgotado todo o arsenal de guerra, se atiram a António Costa --- “o derrotado”, dizem, “o náufrago quer agarrar-se ao poder”  ---  e logo a seguir lhe oferecem o lugar do anarco-cristão na vice-presidência de São Bento…
Honra e valor aos três líderes de Esquerda, se conseguirem unir a grande maioria do Povo português num único tronco que perdure as quatro estações da legislatura! Será a primeira Vitória contra a presunçosa coligação e contra o inquilino de Belém, cuja estratégia, de velha raposa, consistiu sempre  em “dividir para reinar”.
Não me ocorrem palavras mais generosas e mobilizadoras do que aquelas que ouvi, no Forum-Machico, aos excelentes actores do CONTIGO TEATRO quando encerraram o espectáculo deste sábado, declamando Fernando Pessoa: “Ó POTUGAL, HOJE ÉS NEVOEIRO. LEVANTA-TE. É A HORA”!
21.Out.15
Martins Júnior


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

DOIS ANDAMENTOS PARA OUTUBRO EM MACHICO ---- APOTEOSE E PROTESTO



Hoje fico em casa, não pelo frio e pela chuva que enchem o vale, mas bem ao contrário, pelo calor anímico com que Outubro continua a  envolver as gentes de Machico. Refiro-me às iniciativas histórico-culturais que neste pico do outono vestiram a paisagem física e humana desta cidade, com destaque  para a “as artes dos deuses e dos homens” --- a música e o teatro. Todos os fins de semana têm-nos brindado com produções de representação regional, nacional e internacional, sempre com casa cheia.
  Anteontem, o palco do Forum ofereceu-nos uma síntese da heteronímia de Fernando Pessoa, a partir da “Ode Triunfal”,  intensamente vivida pelo grupo AMOTEATRO e de tal forma que, não obstante a concêntrica densidade pessoana, manteve o auditório numa consonância premente, total,  com os três intérpretes em cena. (Entre parêntesis, foi pena ter coincidido com o mesmo horário do concerto de órgão na igreja matriz).
Ontem, o encerramento da programação do Dia do Concelho saldou-se num memorável concerto, em que a simbiose do canto e dos metais  “abalou” de emoção todos quantos ali se encontraram. Falo do duplo álbum  que se abriu diante dos nossos olhos: o Grupo Coral de Machico e  a Banda Municipal de Machico. O primeiro, dirigido pelo maestro Nélio Martins, primou pelo exímio culto da afinação de vozes e pela versatilidade programática, desde Lopes Graça, Zeca Afonso, folclore local e nacional, terminando com o soneto de Francisco Álvares de Nóbrega dedicado “À Pátria do Autor” (Machico) com música do autor destas linhas e harmonização superiormente  criativa do maestro.  O segundo, protagonizado pela Banda Municipal de Machico transformou aquelas paredes em reflexos sonoros de uma apoteose arrebatadora, transportando-nos até aos confins do “Oregon” e à solene magnitude dos palácios reais com a magnífica interpretação do famoso “God Save The Queen”. O final foi uma enorme cascata de luz e som, juntando em delta as duas inspiradoras torrentes, o Coral e a Banda.
Faço, agora, eco do segundo andamento desta partitura. Após os merecidos aplausos e a irradiante  intercomunicabilidade entre espectadores e actores no final de festa, comentava-se: “Mas como é possível uma Banda como esta, a nossa Banda, ficar marginalizada o ano inteiro,  proscrita de todas as  efemérides programadas, a nível religioso, no centro de Machico”?
Reservo um parágrafo para informar  quem não saiba que já lá vão  três anos consecutivos que a centenária banda de Machico, fundada em 1896, convidada de honra para a saudação ao rei D. Carlos I à Madeira, em 15 de julho de 1899 --- a nossa banda, de tantos e nobres pergaminhos,  está proibida de actuar nas festas religiosas da jurisdição da igreja matriz da cidade de Machico!!!
Birras mesquinhas de âmbito estritamente  pessoal levaram o responsável eclesiástico a provocar semelhante escândalo, ostensivamente manifesto diante de toda a população: no adro e nas procissões vemos desfilar bandas estranhas e  a centenária banda de Machico exilada na sua própria terra. À primeira vista, poderia interpretar-se o caso como uma insignificante  questiúncula paroquial. Mas não. Configura uma anacrónica ordem de exclusão, acintosa e vingativa, imprópria de qualquer sociedade civilizada, muito menos de uma agremiação religiosa! Constituiu um espectáculo insustentável, humilhante para todos nós, ter  visto há dois anos, no cortejo processional, os nossos músicos correctamente uniformizados desfilando, em silêncio,  atrás de uma outra banda convidada com o único objectivo de enxovalhar os nossos!
Como natural e residente em Machico, que em 77 anos de vida nunca testemunhou semelhante  ditadura inquisitorial,  não me contive que não escrevesse ao senhor bispo António José Cavaco Carrilho. Por não ter recebido qualquer resposta, confrontei-o pessoalmente no encerramento de uma Semana Bíblica em Santa Clara: “Então leu a minha carta?”…”Mas é essa mania que as pessoas têm  que o bispo tem de responder por tudo”. “Mas o senhor é que é o responsável pela diocese e, consequentemente, por este escândalo”.  Palavras perdidas. Até hoje!
Fosse o presidente do município, fosse o presidente do governo regional, fosse o Primeiro Ministro que se atrevessem a “condenar” assim publicamente uma associação local, Escola de Artes e Civismo,  prestadora dos mais nobres serviços há mais de cem anos --- e isto já estaria completamente sanado e resolvido pelo protesto da população!... Os homens da Igreja estarão nos altares a pedir preces ao povo para que Israel se entenda com a Palestina, para  que o Estado Islâmico acabe a guerra contra os cristãos sírios de El-Assad, se calhar estarão a rezar para que António Costa se una a Passos  Coelho para um governo estável --- e não dão um passo  para reconciliar a igreja com os seus próprios paroquianos,  não mexem um dedo para unir a Casa de Deus com a “divina arte” nascida no seu  próprio seio. Sórdida hipocrisia! Até quando vai suportá-la Machico?
Aos meus amigos que nada têm a ver com esta mísera situação, as minhas desculpas pelo incómodo. Limito-me a repetir a canção apelativa: “Vimos, ouvimos e lemos, Não podemos ignorar”! Foi por isso que hoje deixei-me ficar por este vale, cheio risco e de beleza.
Para fechar estas linhas --- que não o problema em causa --- saúdo as restantes paróquias de Machico que abraçam festivamente a Banda Municipal e rememoro o pensamento de alguns teólogos: a Igreja institucional  é,  paradoxalmente,  uma  organização  anti-democrática. Aqui e agora. Esta hierarquia, autocrática e exclusiva,  está nos antípodas da Ideia e da Acção do Papa Francisco, o pregoeiro da reconciliação, o incansável apóstolo da Inclusão!
 Para conforto meu e de milhares de conterrâneos, esperamos ver o “Dia de Natal” da Igreja em que a nossa Banda rompa os muros  da   velha Inquisição  local e renasça  nas praças e nas ruas, repondo o pleno musical, belo e triunfal, em todo o vale de Machico.
Que o Protesto se transforme em  Apoteose!

19.Out.15
Martins Júnior


sábado, 17 de outubro de 2015

AUTO-GOLOS SEM EMENDA!




Ora, vejam lá  no que se me deu hoje a falta de ar fresco. Que o ambiente anda  pesado,  ninguém duvida. Um “capacete” à moda da ilha, carregado de negrume com aves agoirentas a encher-nos as orelhas e a cabeça de ameaças, traições e neuroses que povoam a madrugada do amanhã político. Nisso são hábeis e disso se alimentam os comentadores, uns --- velhos do Restelo,  outros --- caloiros movediços que vão repetindo em altos decibéis os  mesmos chavões que ouvem, aqui e ali, pelo buraco da fechadura da intriga partidária. Por isso,  hoje resolvi “dar o fora” e estender-me ao comprido na relva, como o “Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro.
         Mas acho que me enganei. Ao pisar o relvado, vi-me metido num caldeirão infernal, com as orelhas a chiar e a cabeça estonteada, desejando sair dali, antes mesmo de entrar.  Julgareis vós que por causa dos milhares e milhões de espectadores apinhados nos anéis dos rectângulos. Nada disso. Precisamente ao contrário. O meu fastio, quase náusea, veio de fora do estádio. Veio da  sede dos clubes, dos gabinetes dos directórios desportivos, enfim, veio daqueles que nem tocam no disputado esférico que enlouquece as multidões.
         Sei que corro o risco do “bota-de-elástico”,  mas não me contenho perante a grosseria, direi mesmo, a mais desmiolada paranóia, de certos dirigentes maiores do nosso futebol  que parece terem engolido as trombas de um elefante e borrifam (apetecia-me usar outro termo) cá para fora   dislates, barbaridades, roupa suja, bisbilhotices  para-porno, enfim toda a cloaca de que estão cheios aqueles dentes. A mais “preciosa”, porque “origiginalissíssima”, de cair para o chão, foi aquela que me saltou à vista  nos escaparates da tabacaria onde compro diariamente os meus jornais. Ei-la: “O clube X (…) sofre de um problema teológico”. Fiquei de bruços. Mas que raio de crise de fé  teria esse clube? O dirigente, jovem melro verde com gorgulho de peru velho, explica: “É que ele deve dinheiro ao Espírito Santo e quer que seja Jesus a pagar”. Onde isto já vai! É o cúmulo da senilidade pueril ( o contrate é propositado), da mais esfarrapada idiotice.
         Esta ridícula batraquiomaquia (combate entre sapos) provém única e exclusivamente deste monumental cambalhota de papéis: os presidentes dos clubes querem sobrepor-se aos profissionais da bola, alimentam a prosápia de serem eles os protagonistas em cena. Faço ideia do desconforto com que os atletas entram em campo,  sabendo que os presidentes em guerra querem substituir-se a eles próprios, os jogadores, que são os criadores das vitórias e as vítimas das derrotas. Mas, que remédio! Têm de calar-se,  porque nas cúpulas desportivas a ditadura é palavra de ordem. Desde o empresário ao jogador, desde o médico ao treinador, desde o presidente ao roupeiro. Todos comem à mesa do orçamento do clube, enfim, dos sócios que assistem como marionetes a este desfile de bobos emproados. Do que conheço, fico com a convicção de que há presidentes que nunca foram nada na vida e empoleiram-se na gaiola mais alta da quinta para mostrarem ser alguém. Lembro-me do malogrado António Gonçalves que aproveitou a passagem pelo SCP para exibir as bigodaças que lhe torciam o nariz. Na Madeira, então a aliança entre futebol e governo nunca teve vergonha, não se descortinando onde acabava o presidente do clube e começava o político e/ou  deputado.
         Partindo da evidência  que o futebol  é  como um íman de emoções e de paixões --- recordo-me também do actor Artur Semedo que dizia “a minha religião é o Benfica” --- deveriam os seus líderes assumir o seu lugar de pedagogos e aglutinadores  dos melhores princípios, indispensáveis a  uma sociedade, onde o desporto é valência estruturante.  Mas, pelos vistos, não têm emenda.
         Por outro lado, ao constatar o antro de corrupção que são as redes de tráfico do futebol --- veja-se, por todos, a caso Blatter, a nível internacional --- nem  apetite chega para ligar a TV nas maratonas corrompidas do futebol profissional. É melhor voltar à arena política. Pelo menos, aqui  há um juiz soberano que põe e dispõe: o Povo!

17.Out.15

Martins Júnior

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

"TODOS ME QUEREM E EU QUERO O MEU BEM…"



        
       Não é cantiga de amor a que hoje me traz ao vosso convívio. Longe disso. Nem será também de escárnio e maldizer. Talvez de mero lazer, à mistura com algum piripiri, sobre o cenário de coisas sérias que desfilam diante dos nossos olhos e a que Camões classificaria de “Desconcerto do Mundo”. Tivera eu o humor cáustico de Bocage ou o da sátira repentista do seu companheiro de cela no Limoeiro, o nosso “Camões Pequeno”,  para pincelar as caricaturas da comédia humana a que todos assistimos  nestes  dias.
         Coleccionador que sou do “antes” e do “depois” dos acontecimentos, folgo-me de um gozo largo, até à exaustão,,  quando comparo cenas, trejeitos e esgares furiosos de ontem com a macieza lânguida e murcha, roçando o auto-vexame, de hoje. Estais, como eu,  a ver o filme do fogo cruzado,  implacável fogo posto em todo o  cerco da floresta, com o pobre António a meio, costas e cara queimadas da artilharia sem tréguas da direita e da esquerda.  Quem não se lembra das rajadas-em-duplicado despejadas dos dois canhões-sem recuo,  Coelho e  Portas --- “traidor ao próprio partido, coveiro das finanças públicas ao serviço de Sócrates, bicho-papão dos portugueses “ --- e outros mimos que tais?!... E da parte dos vizinhos de Moscovo, quem poderá esquecer as imprecações de juba grisalha  com que grelhavam o já assado Costa e faziam  do PS o recheio de uma malfadada sandwich entre as duas empadas, uma o PSD, outra o CDS?!...
Na noite do 4 de Outubro, o foguetório de todos contra  --- diziam --- o  único perdido náufrago,  deserdado das urnas, condenado às galés e à imediata demissão, o pobre  Costa. E eis que, acordados da ressaca de domingo, voltam a si, fazem as contas e --- milagre! ---- “Aqui d’El Rei, nós é  que estamos  entalados”.  Afinal, o bolo não dava para nenhum dos três, afinal o filho que “pariram” tinha três donos, três ou quatro paternidades. Era de todos e não era de ninguém!
         O deserdado, o “energúmeno” Costa, consciente da leitura exacta dos resultados,  reconduziu-se à sua cela, dizendo apenas que não se demitiria. E foi aqui que a exemplar porcina torceu a vergonhosa extremidade e fez a inversão de marcha: deixou a rampa triunfal para São Bento e voltou ao chão do Rato. E, de cócoras, viu que não lhe bastava uma só muleta, a do Paulinho. Carecia de uma outra, a perna esquerda, a do Costa. Vai daí, Coelho estende a passadeira vermelha (“credo, abrenuntio”) para o Rato entrar.  E conversam, conversam… Insatisfeito com a ementa, vai de novo o Coelho, com as pernas húmidas, sobe as escadas do Rato e entrega uma cunha “facilitadora”, de  vinte ofertas de casamento.  Devo dizer que jamais me passará da memória  aquela cena verdadeiramente patética: Coelho, o “antes” gesticulador  de facécias divertidas, agora de trombas, olhar vago e semi-perdido,  a queixar-se que dera todos os anéis de promessa e saía de mãos a abanar.  E o outro, o “antes” adamastorzinho do Caldas, o prof. das piruetas oratórias, agora ali, encolhido como um embrulho de esquina, sempre lá arrastou os pés, agarrou-se ao bordão do microfone e, a avaliar pelos  desconexos fonemas produzidos, deve ter balbuciado: “Coitado de mim que agora nem para muleta do Pedro  sirvo” … Moral do primeiro capítulo:  “Só tu, Costa, é que nos podes deitar a mão para não cairmos da cadeira como caíu o nosso patrono Salazar”!
         Quanto ao Palacete encarnado, o inamovível senhor da instituição esqueceu todas as juras condenatórias, desfez-se em pranto de encantamento e foi o primeiro a convidar a antiga presa para sentar-se à sua mesa. “Benvindo, Irmão. Em boa hora chegaste. É de ti que precisamos  para alcançar o eléctrico de São Bento. Chegou, enfim, a nossa hora”.  E, como se uma prova de arrependimento não bastasse, voltou à carga, dois dias depois, com reiterados votos de conversão ao  Costa, o “execrável” recheio ensandwichado da dupla PSD/CDS.
         As voltas que o mundo dá… Costa, de mal-amado a bem-amado!
         No terreiro do Bloco, os olhos ternos  cor-de-azeitona  de Catarina,  pela sua fina sensibilidade  de mulher, aliada a uma subtil inteligência, ganharam, já antes do 4 de Outubro,  uma leitura mais lógica e menos sectária:  A UNIDADE É QUE FAZ A FORÇA. E franqueou de imediato janelas abertas de novas oportunidades para o país.
         Bom, a paródia ainda vai no adro, porque falta entrar o “Totalmente Insensível” Cavaco, como ele próprio fez questão de cognominar-se, em fim de prazo. Mas os primeiros capítulos já dão para rir. Quando digo “rir”, estou a pensar naquele aforismo, velho de barbas, como o Diógenes da velha Grécia:”Ridendo, castigo mores” --- rindo, estou a avaliar e  a criticar o que acontece.  Por hoje, é também este o meu propósito, não na matéria de fundo, mas na sua forma. Porque desconhece-se ainda o que está para vir.
         Seja o que for e como for, não deixa de ser divertido e, ao mesmo tempo, instrutivo, este desconcerto do mundo: o que ontem era, hoje pode deixar de ser. Não é por acaso que a revista “Visão”  traz em manchete de capa este mesmo jogo de contrastes, sobrepondo  à gravura de Costa, o sugestivo título: “ O  elo mais fraco,  O  elo mais forte”,  eliminando a vermelho  o desqualificativo “fraco” e  mantendo o qualificativo “forte”. No final de tudo isto,  vejo passar, empoleirado em cima do carro de campanha do PS,  o quarteto PSD/CDS/PCP/BE, todos  a cantar desaforadamente   aquela cantiga que os megafones  da propaganda  adaptaram de uma outra toada popular:
                                      Todos me querem
                                      E eu quero alguém
                                      Quero o  PS
                                      Não quero mais ninguém

No entanto, não esqueço uma outra frase profética que vem dos confins do tempo, inscrita no LIVRO (Salmos,  118, 22-23): “A pedra que os construtores rejeitaram  tornou-se a pedra angular do prédio”,  a sua pedra de alicerce.
15.Out.15.
         Martins Júnior


N.B. Para evitar equívocos, devo esclarecer que já há algum tempo  deixei aqui a minha declaração de voto, quando escrevi  que  a melhor garantia de estabilidade política do país seria uma governação tripartida PS/BE/CDU.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

QUEM SABE SE DENTRO DE TI NÃO ESTARÁ UM NOBEL DA PAZ ?


           São tantos e de variegadas  cores as preciosas corolas que nascem nesta colina  de outono. Chamo-lhes corolas,  aos troféus  com que  por esse vasto mundo são galardoadas proeminentes figuras contemporâneas. E chamo-lhes  preciosas, não tanto pelo “vil metal” com que se apresentam, mas pela prata, pelo ouro e pelo diamante que trazem dentro de si os felizes contemplados. São os prémios Leya,  são  festivais de Veneza, de Cannes, são .as “bolas de ouro” e, por todos, os prémios Nobel.
         No entanto e  como fazem questão de sublinhar nos seus discursos, os agraciados, mesmo que singulares, reportam sempre o troféu a uma pluralidade de indivíduos, ambientes e circunstâncias, seja à família, aos colegas de equipa, aos mestres, aos alunos, aos pobres, aos mecenas e, por fim, a toda a nação, os quais, todos juntos, proporcionaram a subida ao pódio único do seu  “único herói”. E, entre toda a gama de medalhas e condecorações, uma há que sobressai como o vértice de toda uma pirâmide de esforços, tentativas  e até de vítimas anónimas: é o Prémio Nobel da Paz.
Analisadas as circunstâncias, na sua génese e no seu crescimento, o galardão da Paz nunca é fruto exclusivo da árvore que o ostenta, antes pertence ao universo telúrico de onde emerge e onde  mergulha as suas raízes no húmus difuso de genes, sangue fertilizante  e, quantas vezes, ossadas mudas de sofrimento e morte. A PAZ é um PIB universal que não cabe nos manuais da contabilidade pública nem se afere pela magra fita métrica deste ou daquele artífice, por mais místico que se julgue.


 Perguntar-me-eis  o porquê de inscrever hoje neste correio o Prémio Nobel da Paz. Por dois motivos. Primeiro, porque perfazem-se nesta noite, de 13 para 14 de Outubro,  50 anos + 1 sobre a sua  atribuição a Martin Luther King, em 1964, quando tinha apenas 35 anos de idade, considerado por isso o  mais jovem galardoado de todos os tempos. Segundo, porque o Prémio Nobel da Paz de 2015 foi concedido a um grupo de quatro promotores, pertencentes a quatro ONG’s,  pelos esforços desenvolvidos  para que na Tunísia a “Primavera Árabe” não resvalasse no tormentoso inverno de sangue, como malogradamente aconteceu noutros países vizinhos.
E é aqui, precisamente, que pretendo incidir o núcleo desta minha reflexão. Sem prejuízo do justo mérito das personagens singulares que o receberam, entendo que o Prémio Nobel  da Paz há-de pertencer sempre, ou preferencialmente,  a um colectivo. Pelos considerandos supra-enunciados, mas também porque a PAZ guarda, dentro de si, um rosto multifacetado, onde convivem sorrisos, rugas e lágrimas, traumas e estigmas e, por mais estranho que pareça, bênçãos e ameaças. Dando razão ao velho axioma “Si vis pacem  pare bellum” --- Se queres a paz prepara  a guerra ---nem sempre é fácil distinguir os enigmáticos atalhos que conduzem à Paz, sendo certo que para lá chegar é preferível  a luta fragosa  ao “descanso eterno”  dos cemitérios ou, como dizia alguém recentemente, antes um franco debate  nacional  que  a “estabilidade da Coreia do Norte”.
A geração dos “Quatro Coroados” da Tunísia vem de longe: vem dos cárceres da guerra contra a ditadura, cresce com os fulgores e as incertezas da primavera, fortalece-se  no exercício paciente do debate,  na dialéctica do diálogo,  aperfeiçoa-se na liberdade partilhada e, ao fim,  alcança a planura onde todas as armas se calam  e todos os ódios se apagam. Caminho sem termo, “missão impossível”,  pois que as águas paradas levam ao pântano e o pântano gritará, de novo, por mãos corajosas que agitem as águas. Retomando Vinícius de Morais, diria que a Paz, tal como o “Operário, está sempre em construção”.
Obreiros da Paz são “os que sofrem perseguição por amor  da Justiça” (Mat. 5,10), os que lutaram contra a ditadura de 48 anos de fascismo e apodreceram nas masmorras, os que combateram os “Vampiros”,  os que enfrentam a barbárie do “Estado Islâmico”, os jornalistas assassinados,   os 95 mortos  e 246 feridos em Ankara na manifestação pela Paz, os jovens presos em Luanda juntamente com o “rapper” Luaty Beirão em greve de fome. É infinito o sudário vermelho, de sangue e luta, daquela multidão anónima que nos subterrâneos do  silêncio constroem,  pedra a pedra, o monumento da Paz. Entre nós, obreiras dela são também os que afrontaram as arbitrariedades de 38 anos de repressão disfarçada de autonomia! E os que denunciam os criminosos procriadores da pobreza, os que, na Europa e no mundo, gritam contra os usurários dos “offshores”, enfim, toda essa marcha triunfal  de heróis, voluntários jornaleiros da Justiça, parcelas indissociáveis do Grande Nobel da Paz.
E tu também o és, quando abres uma clareira na escuridão, quando bates o pé pelo interesse comum e pela Razão, quando vences o medo e, “em tempo de servidão, sabes dizer Não”!    
Dentro de cada um de nós mora o Nobel da Paz.
      13.Out.2015
         Martins Júnior


domingo, 11 de outubro de 2015

JORNALISTAS: árvores que morrem de pé!


Não me sai do pensamento “aquele espesso negrume” que pousou,  anteontem, no campo santo de São Martinho. O 9 de Outubro de 1803, passados que foram 212 anos sobre a aluvião que inundou Funchal e Machico,  parece ter feito  furtiva aparição para escrever sua elegia em cima do berço último de Luís Miguel França. Mais eloquentes e longas que as pesadas bátegas da chuva cadente eram os passos e as emoções da multidão envolvente.   Entrava no subterrâneo de uma liberdade sem termo aquela voz sonora e quente que sustentou quem cá ficou nas grades sem paredes da terra dos vivos.
Quarenta e quatro anos!
Associei-o a outro seu companheiro de jornada que, saído de Machico, voltou às raízes, precisamente no Abril dos Cravos de 2015, Tolentino de Nóbrega.
Evocando o pungente poema de Soares dos Passos, quanto desejaria eu saber o que porventura estarão dizendo eles nos corredores invisíveis   que ligam  a primeira à segunda capitania da Madeira! Mas eu adivinho-lhes o eco da mensagem  e ouso transmiti-la a todo o mundo:
“AS ÁRVORES MORREM DE PÉ”!
E os --- estes!  --- JORNALISTAS TAMBÉM.
         Estes ... e aqueles que foram proscritos pelos regimes totalitários, seja em Pequim, Moscovo, Angola, Guiné Equatorial, Zimbabué…E os que são barbaramente decapitados. Todos morrem de pé!
         Porque morrer de pé é manter firme e altaneiro  o tronco  “de antes quebrar que torcer”. Morrer de pé é ripostar que “não há machado que corte a raíz”  à minha pena nem o brilho da minha voz. Morrer de pé é cantar por entre as cordas liquidas da chuva cadente: ”Eu estou aqui”! E morrer de pé é saber que os pássaros da memória vão disseminar do fruto da árvore novas e promissoras sementes de esperança que tornarão a terra mais verde.
         Não vou reproduzir aqui o seu percurso profissional no jornalismo e na intervenção social. Outros já o fizeram  proficientemente. Apenas pretendo juntar à sua acção o sublinhado de Thomas Merton quando escreveu “Homem Algum é uma Ilha”. Sem sombra de dúvida, o que sucede a um indivíduo não se esgota na singularidade da sua pessoa. Toca a todos. Porque não é o acaso que provoca a boa ou má “sorte” de quem quer que seja, sobretudo de quem traça uma linha recta no horizonte do seu sonho. É toda uma sociedade, um contexto e um regime que tomam  nos braços os seus constituintes, umas vezes  para afagá-los, outras vezes para afogá-los.
         Luis Miguel França e Tolentino de Nóbrega podem, ainda hoje, fazer suas as palavras do editorialista do jornal britânico The Times,  em 6 de Fevereiro de 1852(!): “Para nós, a publicitação e a verdade são o ar e a luz da existência. Não pode haver maior desgraça do que recuar perante a divulgação, franca e exacta, dos factos, tal e qual como são. Somos obrigados a dizer a verdade, tal e qual como a encontramos, sem medo das consequências”. Isto, em 1852!
         Ousar, mesmo sabendo que sairá cara e violenta a factura vital! Quem afronta o monstro da repressão?  Afrontou-o corajosamente o presidente do Sindicato dos Jornalistas Franceses, George Bourdon, em 1931 (!), dirigindo-se aos seus associados: “O jornalistas não é ninguém se não for ou não se esforçar por ser, na intimidade da sua consciência, um servidor da verdade e da justiça e se não dedicar toda a sua energia a defender honestamente o interesse público”.
         Na esteira deste brilhante líder da nobre profissão de informar, não será difícil descortinar a razão por que tantos e tão competentes jornalistas têm sido estrangulados,  decapitados aos poucos, sadicamente silenciados, despedidos  ou postos nas prateleiras dos arquivos das redacções. Não falo das longínquas ditaduras asiáticas. Falo daqui, desta ilha de corcundas-escribas (os mais perigosos,  sob o verniz de “independentes”) vergados ao poder, dando umas pinceladas de tintura “mercurocromo” para disfarçar a piscina aquecida do patrono onde molham a pena.  Não há censura, é certo. Mas também não há liberdade. E, como dizia Jefferson, “nunca  haverá democracia se não houver  liberdade de imprensa”.
         Em consonância com Luís Miguel França e Tolentino de Nóbrega, permitam-se transferir para esta página, uma das cenas do filme de John Ford, datado de 1962, “O Homem que Matou Liberty Valance”, o  pistoleiro do reino, cena essa protagonizada pelo director do diário local, que vai dando ânimo à  população aterrorizada, dizendo: “Sou um jornalista… Sou a vossa consciência… Sou uma pequena voz que atroa na noite… Sou o vosso cão-de-guarda que uiva aos lobos… Sou o vosso padre confessor…”
         Bernardo Santareno, ao escrever  “A Traição do Padre Martinho”(1969), fecha  o drama com o frustrante e revoltoso desabafo do sacerdote, várias vezes preso pela Pide: “Não é possível ser-se padre em Portugal”. Justaponho, sujeito embora a todas as críticas, o meu desabafo, fruto do descrédito, com provas de sobra,  pelos responsáveis oficiais e oficiosos da comunicação cá da ilha: “Não é possível ser-se jornalista nesta terra”. E acrescento: “Que preço custará a coragem de sê-lo?” Numa ulterior távola deste SENSO&CONSENSO, quando achar oportuno, reproduzirei aqui o que então, frontalmente, em 1985, afirmei em plena ASSEMBLEIA Regional da Madeira.
         Que havemos de fazer em memória das ”árvores que morreram de pé”,  os JORNALISTAS Luís e Tolentino, senão cuidar e fazer frutificar as sementes que nos deixaram?!
11.Out.2015
Martins Júnior
    
   


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

ESTUFAS DE MITOS MILAGRES E ROSÁRIOS


Quem se der ao gosto de viajar na redoma do sonho há-de pairar, extasiado, no melhor dos mundos e daí evolar-se, desfiar-se e multiplicar-se em miríades de estrelas, mais numerosas e esotéricas que as que compõem as galáxias supralunares. Esse extenso  mundo, sem linha de horizonte, é a crença religiosa. Peço aos meus comensais nesta mesa do dia ímpar a paciência de não mudarem de canal, porque não é de teses teológicas que componho hoje  a minha ementa. Pelo contrário. É da imaginação criativa, de uma certa consciência onírica,  que vos dedico estas (que desejaria breves) linhas, mereçam ou não o vosso consenso.
Porque hoje é o dia 9 de Outubro e é do fundo côncavo do vale de Machico que vos escrevo. É o tradicional Dia do Senhor dos Milagres.
Diga-se, desde logo, que esta á uma comemoração doméstica, nada e criada nas paredes centenares deste vale. Em nenhum outro lugar da cristandade tem o “9 de Outubro” semelhante designação. É também uma festa recente, com início em 1803. Em bom rigor, nem deveria falar-se de “festa”, mas sim de tragédia, pois as barragens celestes abalaram-se num ápice e arrastaram para o mar casas, terras, vidas, cerca de 600 a 1000 pessoas. As zonas mais “castigadas” foram Machico e a baixa do Funchal, com a avalanche voraz caída dos altos da freguesia do Monte, em proporções incomparavelmente superiores às do 20 de Fevereiro de 2010.
Depois, vem a lírica composição narrativa de uma galera americana --- tinha, logo,  de ser americana --- que achou intacta, no alto mar, o cruzeiro que havia na capelinha da Misericórdia, depois da “Ordem de Cristo” do Infante e, finalmente, cognominada de Capela dos Milagres. Esta a versão que a oralidade popular foi passando de geração em geração.
            E aqui começa a liberdade de sonhar. Um amigo meu telefona-me, espevitado e de dedo em riste, “então, não ouviu na RDP aquela versão de que a imagem tinha sido recolhida por uma barca, de nome “Áquila”, a qual se encontra no litoral do Funchal, estou de cabelos em pé…e você não diz nada”.  Posta a água na fervura, esclareci que não tinha ouvido o noticiário, ao que ele, conhecedor da matéria,  insiste: ”mas foi alguém aí de Machico, com responsabilidade religiosa”, etc.,etc.. A “Áquila” era a embarcação que fazia o transbordo dos passageiros do hidroavião que  amarava na baía do Funchal, na década de 50 do século passado. Bom, o caso é de “lana caprina”, mas se a versão pegar, por mais anacrónica que seja, deixa de ser a galera americana para ser a barcaça inglesa a salvadora da estátua. Assim se misturam lendas sobre lendas, qual delas a mais engenhosa. Basta meter crenças religiosas e mitos pelo meio.
            Outro caso não menos interessante ocorreu anteontem, 7 de Outubro, dia de Nossa Senhora do Rosário. Roça as raias do inverosímil, do absurdo mesmo, o que se conta acerca deste dia. Foi em 7 de Outubro de 1571 que se deu a trágica batalha naval de Lepanto entre a esquadra da Liga Santa e os turcos otomanos que se tinham apoderado da ilha de Chipre pertencente, então, à República de Veneza Oriental e, daí, avançariam sobre Veneza Ocidental, seguindo-se-lhe os territórios do Vaticano. O domínio do Mediterrâneo era a ponte estratégica do comércio de então, encarniçadamente disputado por europeus e muçulmanos. Veneza pede auxílio ao Papa que congrega os diversos reinos dos Estados Papais, Reino de Espanha, Cavaleiros de Malta, com o apoio financeiro da Casa dos Habsburgos e lançam-se, com 108 naus, no embate contra a armada turca, numericamente superior, composta por 186 naus.  É sangrento o relato que fazem dessa guerra os cronistas da época, cujas descrições de esmagamento de homens, crianças, mulheres, em terra e violentos duelos no mar ao aproximar das barcas, os quais pouco diferem das crueldades que hoje “vemos, ouvimos e lemos” nos Estados Islâmicos. Da parte dos turcos caíram 30 a 40 mil mortos, 8 a 10 mil prisioneiros, a cabeça do almirante otomano   Ali-Pachá cortada e posta na ponta de uma lança  e, para cúmulo do pavor, uma “Senhora de Aspecto Majestoso e Ameaçador” no mastro alto de uma das naus cristãos, que pôs os “inimigos” em fuga, etc.,etc..
            A surpresa vem a seguir. Foi nessa altura que o Papa Pio V mandou espalhar por toda a Cristandade a devoção do rosário a Nossa Senhora. E eis que, após tão tremendo massacre, dispêndio de vultuosos investimentos financeiros, desgaste das populações, a batalha saldou-se com a vitória da Santa União contra o Império otomano. E também para toda a cristandade proclamou-se o seguinte édito: ”Non virtus, non armas, non duces, sed Maria Rosarii Vitores nos fecit” --- Nem as tropas, nem as armas, nem  os comandantes, mas  somente foi a  Virgem Maria do Rosário que nos deu a vitória”. E assim começou a festa de Nossa Senhora das Vitórias, assim fizeram caminho os arraiais do Rosário, como o da Madeira, em São Vicente, este ano transferido para o próximo domingo.
            Como foi possível associar a Senhora à cobiça capitalista do reino da Veneza de então e à disputa dos monopólios comerciais no Mar Mediterrâneo !
Que blasfémia inaudita dizer àquelas pobres velhotas da província que cada conta do seu terço, rezado todas as noites, funcionava como um granada de mão (um míssil, em linguagem actual) para matar vítimas indefesas, seres humanos e, quase sempre, os mais frágeis…
Quem julgará os criminosos sacrílegos?!
            Sem mais comentários, até onde nos levará a escaldante criatividade  pseudo-religiosa? Michel de Montaigne, já no século XVI, classificara a nossa imaginação como “La folle de la maison” --- a louca da casa. E não há chão mais fértil para tais derivas como o devocionismo febril da crença desenfreada.
            Não espero consenso geral para estas propostas de aprofundamento, feitas com todo o senso, para mim, e não menos coragem intelectual. Para serenar-me nesta dolorosa incursão, encosto-me a uma das árvores da nossa ribeira de Machico, neste 9 de Outubro, e imagino ver, na outra margem,  o Cristo em pessoa olhando as ondas revoltas da enxurrada: à sua frente rolam, lado a lado, uma cruz de madeira e uma criança, um pai, uma mãe devoradas pela torrente. Quem irá Cristo salvar primeiro?  A cruz de madeira (que depressa se substitui) ou a criança, aquele pai, aquela mãe, aquelas vidas sem retorno?... Da resposta a esta pergunta depende toda a interpretação do Senhor dos Milagres, das Senhoras do Rosário, enfim, da limpeza de olhar com que lemos o nosso código ideo-espiritual.
 9.Out.2015

Martins Júnior