segunda-feira, 13 de outubro de 2014

ONDE SE FALA DO DICIONÁRIO DO LUME E DAS VELAS

ONDE  SE FALA DO DICIONÁRIO DO LUME E DAS VELAS



Tenho andado nestes dias  no meio de fagulhas incandescentes, archotes e fogaréus, velas tremulantes, enfim, um incêndio a que uns chamam de fé, outros de superstição e outros, ainda, de idolatria e paganismo: ele foi a procissão dos Milagres, dias 8 ; ele foi, ontem mesmo, o dia da Senhora da Aparecida no Brasil e hoje,  aqui em Portugal, a peregrinação do adeus de Outubro em Fátima.

Sempre me interroguei sobre a atracção que tais manifestações exercem no comum das pessoas. A um conhecido meu que decidira vir à procissão dos Milagres, perguntei:”tens alguma promessa a cumprir?,  responde instintivamente:”Não, é que eu gosto de ver aquelas luzes, os archotes, aqueles milhares de velas na escuridão da noite.”

É uma interpretação a dele, uma visão emotiva, poética mesmo, do cortejo nocturno. E não só a dele. O lume sempre tocou a sensibilidade dos povos, já por ser um dos quatro elementos constitutivos da criação do mundo, já pela sua força devoradora, já pelo estranho êxtase que provoca , como sucedeu com a loucura  de Nero que mandou incendiar a cidade de   Roma, enquanto na alta torre do palácio imperial cantava loas ao som da harpa.

Ficaram no subconsciente latente activo dos mortais, os resquícios e os significantes do fogo, sobretudo os da sarça ardente de Moisés, das luminárias medievais e dos cruentos cadafalsos da Inquisição: umas vezes para manifestar a Divindade, outras para exorcizar os maus espíritos, outras para vingar a ira de Deus.

Nos dias que correm e que o áudio-visual  se encarrega de nos encher os olhos e as mentes, o lume passou a ter um valor facial, de moeda, de dinheiro em sinal, enfim, de cheque que alumia mas não arde na ponta da vela.. E fico pasmado com a insustentável leveza de siso quando os romeiros ou peregrinos declaram alegremente:”Venho pagar uma promessa”. Aí, o fogo criador, a sarça ardente, o  Lume novo Pascal, todos esses sagrados ícones perdem a simbologia original e são postergados para a arrecadação do material sonante ou para a conta bancária de alguém, chamem-lhe Deus, ou santo ou santa, curandeiro ou adivinho.

Pagar…com dinheiro…a taxa…o preço tabelado…o imposto voluntário… A quem? Como? Porquê?

Ficam aqui estas breves mas fundas incógnitas que, peço aos amigos seguidores, me ajudem a decifrar. Se tiverem a paciência de me ler ( igual ao gosto que tenho de vos receber) deixarei algumas hipóteses de solução no próximo dia ímpar.  

13.Out.14

Martins Jr

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