terça-feira, 21 de novembro de 2017

SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS NUM MESMO CORPO DE LISBOA





Nada melhor que uma antítese para consolidar uma síntese. É, por isso, um privilégio inestimável quando a mesma paisagem, a mesma instituição ou o mesmo problema se nos apresentam do avesso e do direito, de um ângulo proposto e do seu oposto, ou seja, quando analisamos  a realidade nos seus múltiplos contornos.
Esse prazer-valor acrescentado foi-me dado viver em dois momentos marcantes deste fim de dia, 21 de Novembro. O primeiro,  na Aula Magna da Universidade Clássica de Lisboa e o segundo, na Associação José Afonso, também na capital.
No primeiro e fazendo jus ao cenário onde tudo ocorreu, a cerimónia brilhou pela magnitude do ambiente, pelo auditório, pelas personalidades intervenientes em palco. Foi a apresentação oficial do "PORTUGAL CATÓLICO", um requintado volume de 800 páginas, edição do "Círculo de Leitores", patrocinado pelo dono do 'Pingo Doce' ali presente e repetidamente incensado por todos os oradores e apresentadores. O recinto tinha tudo de imponente, academicamente enfático, as instituições (de toda a sorte, políticas, culturais, confessionais)  rigorosamente representadas e assentadas em lugares segregados, os discursos vários, tudo sobredourado pelas primorosas  actuações de Cuca Roseta, Rão Kiao e Teresa Salgueiro. A coroar o mango evento na Magna Aula subiram ao palco os também magníficos Sua Eminência o Senhor Cardeal Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa e Sua Excelência o Senhor Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Foi uma esplendorosa entronização da Igreja Católica numa universidade laica, os seus valores, os monumentos históricos, os rituais pontificais e processionais projectados nos écrãs, os mais proeminentes titulares clericais, enfim,  os contributos eclesiásticos para a construção deste Portugal de nove séculos. Monumental a obra e não menos o espectáculo de lançamento público.

Mais adiante, ao fim da Rua de São Bento, de outros mundos se falava, embora radicados no mesmo tronco institucional, a Igreja. Era uma homenagem a um grande obreiro daquela casa, o falecido Alípio de Freitas. A casa é a sede da AJA - Associação José Afonso, cujo espírito pairava naquela sala, onde amigos comuns confraternizavam sob a memória de Alípio Freitas, para quem o mesmo Zeca Afonso compusera, em 1981, uma das mais expressivas baladas. Homens e mulheres, jovens e adultos, do continente e ilhas, cercados e unidos pelo cículo luminoso da liberdade, evocaram o grande amigo e lutador Alípio. Tudo muito singelo, autêntico, libertador. E comovente: ali presente a viuva Guadalupe e sua filha Luanda.  Mais emocionante foi ouvir a belíssima voz desta jovem, acompanhada pelo exímio 'baixista' Norton, seu marido. Sobretudo quando cantou a balada que Zeca Afonso dedicou ao pai Alípio. A encerrar este encontro, modesto na forma, mas enorme no conteúdo, Francisco Fanhais, actual presidente da AJA e a celebrar 50 anos  de percurso musical, deixou-nos a grande mensagem sonora da sua "Utopia".
Que terá ver este segundo 'acto' com o primeiro, da Aula Magna? Por outras palavras, que tangência têm os dois 'actos' com a instituição Igreja?
É o que importa esclarecer e é também a razão de ser deste escrito. A coincidência que abrange os dois momentos está aqui: ALÍPIO DE FREITAS foi padre da Igreja Católica, ordenado em Bragança, onde exerceu o múnus de pároco e director da Escola de Artes e Ofícios. Tocado pelo autêntico espírito missionário, emigra para o Nordeste brasileiro. Lecciona na Universidade de São Luis do Maranhão, mas era mais forte o apelo pelo campesinato explorado. Fundou a Associação dos Trabalhadores Agrícolas e associou-se às Ligas Camponesas. A sua acção em prol das populações injustiçadas estendeu-se ao Rio de Janeiro, em plena ditadura militar. Foi preso e torturado durante vários anos, como relata o seu livro "Resistir É Preciso".  Entretanto, fustigado pela justiça do Exército e pela incompreensão das hierarquias eclesiásticas, abandona o sacerdócio para dedicar-se mais intensivamente à sua missão de líder social. É tremendamente assustador o seu relato quando foi preso com a esposa e a filha, de um ano de idade - a mesma jovem que hoje cantou na casa da AJA!..
Moçambique, Lisboa, RTP, Universidade Lusófona, foram outras das várias instituições onde exerceu funções, após o 25 de Abril de 1974. Um herói que depôs as armas aos 80 anos de idade! E para sempre ficou no grande pódio dos vencedores da vida: o coração e a mente dos amigos que hoje se reuniram em sua memória.
Deixo a quem me lê o cotejo dos dois acontecimentos da tarde de hoje. Lá em cima, o espectáculo, a entronização.  o clangor triunfalista da Igreja institucional. Cá em baixo, a convicção, a autenticidade, a consonância fraterna e mobilizadora de Alguém que incarnou a Igreja vivencial, exclusivamente comprometida com as raízes do humanismo evangélico. Para mim, a humilde 'mansão' de Zeca Afonso em dia de ALÍPIO FREITAS excedeu em magnitude essencial a majestática Aula Magna do "Portugal Católico".

21.Nov.17
Martins Júnior       

domingo, 19 de novembro de 2017

A SÍNTESE QUE SOMOS - Hoje como ontem, 40 anos depois


Quando em teu redor tudo se parte em estilhaços, dentro de ti renasce, sereno e poderoso, o íman que junta todas as partes num só corpo

19.nov.17

Martins Junior

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

ODE A QUEM ANDA SEMPRE EM VIAGEM


A TODAS AS AMIGAS E A TODOS OS AMIGOS QUE TIVERAM A GENTILEZA E O AFECTO DE ME ENVIAR ONTEM AS SUAS SAUDAÇÕES






São todos iguais
Os cardinais
Entre o berço de pinho e a sombra do cipreste
Separa-os apenas
A veste
E define-os
O cordão umbilical que os atravessa
Desde a mãe-virgem ao ventre da mãe-terra

Setenta e nove estações e  apeadeiros
E dentro  infinitos viageiros
Esperaram por mim

Agora sou eu que vos espero
Nesta viagem sem fim
                   *
Mas ninguém espera por ninguém
Nem alguém
Jamais alguém alcança

Intransmissível e única
A viagem
Mas igual e universal
A portagem
Mistério e êxtase  - estigma e ode triunfal
A todo o imortal sendo mortal
Que viaja dentro de cada um de nós

Os beijos e abraços da vossa saudação
Ficam guardados todos para vós
Quando chegardes à quase-octogenária estação
Que hoje sendo minha
Será vossa amanhã
Na ronda breve desta perpétua ‘reincarnação’

17.Nov.17
Martins Júnior


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

DESCARBONIZAR – É O QUE FAZ FALTA, JÁ!

                                                  


O mundo todo vomita CO2. Por todos os poros! E ando eu, andamos todos asfixiados, sem dar por isso, vítimas inconscientes, moribundos, por inalação tóxica e  sem corredor possível para a fuga. Multiplicam-se as cimeiras, os convénios, os acordos locais, nacionais, mundiais. E deles nada sai mais que uns tiros de pólvora seca que espantam o vulgo mas apenas servem para dissimular a inércia latente dos decisores participantes.
É o que me ocorre nesta data em que Angela Merkel, desde Bona, levanta os braços e grita que “o tempo escasseia”. E, em coro uníssono, todos os comparsas lhe repetem o refrão, acossados pelo descontrolo da atmosfera, pelas secas, pelos incêndios,  pela morbilidade crescente neste nosso planeta. Bem se cansa o Papa Francisco de repetir até à exaustão o  Laudato Si para lembrar urbi  et orbi a responsabilidade dos governantes sobre a Nossa Casa Comum.
Mas não é só da invasão do carbono atmosférico que me enfado e temo. É  outro o poluidor, mais corrosivo e imperceptível, que se injecta, a cada instante, nas nossas veias como nas nossas ideias. Ele penetra subtilmente e nós franqueamos ‘casa e coração’. Ele queima os neurónios, remexe o cérebro e faz de nós robots gratuitos ao serviço de centrais invisíveis. Canais privilegiados são os da informação que ofuscam e embrutecem sociedades inteiras, desde o berço à sepultura. Aceitamos tudo o que eles despejam para a rua, todas as  toxinas e vírus com que enxameiam os computadores das nossas mentes. E ainda pedimos mais. Não sei como é possível aceitar sem protesto horas televisivas de monovolumes quadrúpedes a rolar na estrada ou no stand oficial, só para propagandear firmas produtoras de carbono estridente. Da mesma feita, poderia citar programas de noitadas de copos e ‘vapores’, todas tiradas a papel químico, três, quatro vezes, na mesma noite. Dos futebóis e respectivos comentadores, nem é preciso falar. Vivemos numa cave saturada de fumaça e droga. Alegremente! O avejão mítico da pós-verdade e das fake news, até traz colorido ao negrume poluidor.
Pela mesma via, vêm as baforadas de incenso beatífico acerca das religiões, das igrejas, das crenças mais arcaicas. E tudo consumimos, sem ao menos exercer o legítimo direito ao livre exame e à crítica fundamentada. Mas o pior químico é o que transforma tudo em capital, moeda ou papel. Estoura-me os miolos a transacção de botas e bolas em dinheiro milionário, a instalação de lavadouros autorizados de luvas sujas e smokings pretos, como os do Panamá e agora os Paradise Papers, criminosos antros do sangue, suor e lágrimas roubados ao povo. Chegados aqui e olhando para trás, mais não somos que ridículas marionetes, títeres anões, digladiando-nos uns aos outros  no terreiro dos nossos casebres, enquanto os magnates, invisíveis porque distantes, vão-nos intoxicando nos espessos rolos de carbono saídos dos palácios-casernas de exploração e morte.
Desculpem-me o desabafo, mas hoje estou assim. Insatisfeito, revoltado, sem gosto de viver no breu de um mundo como este. E mais revoltado por ver que a massa informe e bruta em que me insiro, lá vai “cantando e rindo”, sem dar pelo ar infecto que respira.
E se ontem sentia o impulso de despertar, hoje brada mais alto o apelo-palavra de ordem: Descarbonizar, é preciso! Para recuperar frescura e optimismo.

15.Nov.17

Martins Júnior

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A IGREJA NÃO DEIXA DORMIR?

                                                        

Águas paradas não movem moinhos, já o sabemos. Nem moinhos, nem barcos, nem velas, Muito menos os mareantes que somos todos nós. Bem vindas, pois, as rajadas de vento norte que purificam o ar e polinizam os campos e as flores.
Tomo esta alegoria para referir-me a recentes oscilações locais que têm trazido a Igreja madeirense para a ribalta da ilha. Parece que todo o bolor armazenado nas sacristias saiu à rua, pois nunca a instituição andou tanto na praça pública. ‘Virou’ moda falar da organização eclesiástica. Pela minha parte, passarei hoje ao lado da actual casuística da praxe regional  e dispensar-me-ei de ditar sentenças sobre o menu que o jornalismo local tem servido ao rancho geral da nossa tropa.
Como num duelo de contrastes, trago hoje o testemunho pessoal de uma das mais prestigiadas figuras da Igreja europeia, o Arcebispo de Paris, Mgr. Vingt-Trois, quando completou 75 anos, solicitando em carta entregue  ao Papa Francisco a resignação (demissão) nos termos e para os efeitos do Direito Canónico.. Transcrevo alguns excertos da entrevista dada ao jornal Le Figaro, do último sábado.
Bastaria uma única passagem para atestar o dinamismo jovem deste septuagenário que tem enfrentado casos muito sérios em França, entre os quais o da diocese de Lyon, envolvendo também  o bispo local, Mgr. Barbarin. Eis a palavra de ordem de Mgr. Vingt-Trois, na mensagem de despedida:
A missão dos cristãos é não deixar o mundo dormir”!
Por outras palavras, ele chamava a atenção da Igreja para  o imperativo essencial e inadiável de agitar uma sociedade inerte e amorfa,  acomodada ao reino do mais fácil, onde o oportunismo egoísta torna tudo    num pântano irrespirável, gerador de  anomalias e inimagináveis sobressaltos. Quando o jornalista Jean Marie Guénois o confronta com o papel redutor da hierarquia, responde frontalmente: “Não posso conceber uma  Igreja a duas velocidades. A Igreja do povo (LÉglise du peuple) deve aceitar as diversas modalidades de pertença... O responsável de uma comunidade não está lá para impor as suas reacções subjectivas” E formula um desejo profundo; “A minha esperança é que um dia  venhamos a ter uma Igreja suficientemente viva e saudável para acolher (abraçar) pessoas que não lhe estão necessariamente conformes”. Que fino apuramento de sensibilidade e que evangélico sentido democrático de um alto titular da hierarquia!
Ficarão, decerto, escandalizados os crentes pietistas (vulgarmente, os beatos) com esta lição de catequese esclarecida: “Por educação e pelo meu histórico de vida, não tenho tendência para atribuir a Deus os acontecimentos  que ocorrem no mundo, muito menos os maus acontecimentos. A vontade de Deus sobre  a humanidade é uma aventura que Ele entrega à sabedoria (ciência) do homem”.  E concretiza, de forma lapidar, eloquente: “A missão do cristão baptizado está em comprometer-se o mais directamente possível nessa aventura… É  ao domingo, quando sai da igreja, que tudo começa. À sua volta, esteja onde estiver”.  Extraordinário este toque de trombeta profética que,  na mesma entrevista, fá-lo alertar para o perigo da “anestesia colectiva”!
Por aqui me quedo. Será este, por enquanto, o meu contributo no meio da agitação superveniente àquele dolce far niente (há quem lhe chame marasmo) em que ‘alegremente’ temos vivido, cantando ao Senhor nesta “Ilha do Santíssimo Sacramento”! E se houver quem, perto ou longe, aguce o olhar sobre este  modesto puzzle, desvendando-lhe as semelhanças e as diferenças entre lá e cá – darei por bem empregue a transcrição apresentada.
Mais que tudo, porém, o que interessa é que o nosso despertador de todas as manhãs e de todas as horas nos pique as orelhas com o clarim do sábio hierarca Mgr. Vingt-Trois:  “A missão do cristão é não deixar que o mundo adormeça”.
A começar por cada um de nós!
13.Nov.17
Martins Júnior
     


sábado, 11 de novembro de 2017

“ÀS ARMAS” – QUE DOCES ARMAS!


Vi-os entrar. Primeiro, as secções. Depois, os pelotões, as companhias e, num ápice, estava ali, pujante e possante, um batalhão inteiro. Mais do que isso, juntou-se ali um Regimento. Três batalhões formaram fileiras, numa estranha e majestosa falange: os da Terra, os do Mar e os do Ar. Mais imponente e enigmático, porém, era o silêncio que atravessava todos aqueles corpos hirtos, inamovíveis como esfíngicas estátuas pairadas na noite.
Como um relâmpago furtivo, entra o estratega da ‘guerra’. E, de um gesto – e não mais – as armas ergueram-se, instintivas, altivas. Eram revérberos de luz ofuscando o espaço, espadas flamejantes prontas para o duelo. E logo logo, estala a refrega. Estampidos metálicos rasgam a paisagem, vibrantes, ameaçadores. Silvos errantes escapam-se, ao troar cavo dos canhões submarinos e até os carrilhões das catedrais tocam a rebate. A luta vê-se, não se a descreve. Ataques e sobressaltos. Avanços e recuos, chamadas e respostas, estouros e tambores. Mas, no aceso da batalha, abrem-se clareiras  que nos devolvem a paz mágica de que o mundo precisa.
É este um diário de campanha dura. Só que, por sortilégio, as armas não matam, antes ressuscitam. As espadas flamejam, mas consolam. As metralhadoras não deitam petardos mortíferos, mas são saxos, trompas e trombones. E os trompetes não fuzilam, antes enchem de luz toda planura. Enfim, não há vencidos neste duelo nocturno, Todos saem vencedores: os maestros, os compositores, os executantes, todos nós que ali estivemos, no memorável concerto que reuniu os três ramos das Forças Armadas: Exército, Marinha, Força Aérea. Nunca a nossa ilha viu tamanho areópago da ”arte dos deuses”.
Bem sei que a Música, ou seja, as Bandas Militares têm por objectivo estrutural servir as artes marciais. Tal como a instituição dos capelães militares está ali como sustentáculo e garantia de apoio às operações bélicas dos Estados soberanos. Digo-o, por testemunho  próprio, vivido e sofrido em terras moçambicanas. Aliás, as grandes marchas executadas pelas Bandas adstritas aos Estados, com especial destaque para os Hinos Nacionais, são moldadas numa mística de combate a um qualquer inimigo, seja ele qual for. Pertence à História Mundial da Música o genial compositor Richard Wagner cujas marchas avassaladoras, segundo versão dos investigadores,  foram dedicadas e habilmente exploradas pelo regime nazi.
De tudo, porém, o que se possa dizer sobre o assunto, manda a verdade aclamar, como de resto viu-se ontem na Sala de Congressos da Madeira, aclamar vibrantemente o concerto que nos foi oferecido pelo Comando Operacional da RAM. Numa altura em que se sente o planeta ameaçado de guerras endógenas e exógenas, faz bem interpretar as Forças Armadas como fonte portadora de paz, conforto e estabilidade psicossocial.
Foi bom ver “ao vivo”  que as fardas militares manejam armas mais positivas e poderosas  (que não as  G3 e os canhões sem recuo) e tornam a vida mais saudável e mais feliz. Pela minha parte, constituiu um fenómeno de catarse espiritual sintonizar-me àquele concerto. Permitam-me um desabafo: é verdade que os militares músicos apresentaram-se em traje de gala, como mandam as NEP’s. No entanto, preferia vê-los num contraste maior: envergando o “camuflado” de campanha ( o de má memória) e sobre ele a beleza e a magia de toda a instrumental. É, apenas, um gosto privativo.
Contra os semeadores de guerras, viva e permaneça por outros tantos anos tão bela iniciativa!

11.Nov.17

Martins Júnior             

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

MUROS – Glosa breve sobre o “9 de Novembro” de 1989


Altos rasos pontiagudos
Eles definem a paisagem
Sem eles nunca saberás
O macio da planura
Nem a lonjura da viagem
Esses jamais cairão
Que  o infinito  abismo é o seu chão
               *
Muros outros
Humanos ciclopes
Betonados de ossos mutilados
De gritos em vão
Frenéticos galopes
E restos de dedos sob os cavalos
Dos imperadores capitais
Esses tarde não
E cedo mais
Implodirão
         *
Muros migrantes
Da selva para a cidade
Hoje como dantes

Quem os estoura?
Quem os devora?

O monstro que os levanta
Seja a mão
Que os quebranta
             *
Muro de ti
E muro de mim mesmo
Muro, muralha, mainel, lancil
Somos nós alguma vez


 
                                 


Chovam cravos de Abril
E em cada português
Esta lei nasça e se proponha
Jamais aqui jamais
Rumor tijolo ou sombra
Do muro da vergonha

09.Nov.17
Martins Júnior